A trajetória de Dannyele Catherine de Barradas Oliveira ganhou destaque nos últimos dias depois que ela conseguiu, por decisão da Justiça, realizar o teste de aptidão física do concurso da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC) utilizando os critérios aplicados às candidatas mulheres. A decisão acabou permitindo que ela seguisse no processo seletivo e, na semana passada, desse início ao curso de formação no 6º Batalhão da Polícia Militar, localizado na cidade de Lages.
A história começou ainda no fim de março, quando Dannyele foi convocada para fazer a etapa física do concurso. Porém, a convocação previa que ela realizasse os testes conforme os índices exigidos para candidatos do sexo masculino. Diante da situação, sua defesa resolveu recorrer ao Poder Judiciário para tentar reverter essa determinação.
A advogada Lenise Marinho Mendes Moura apresentou uma ação argumentando que a candidata já vivia como mulher há anos e fazia tratamento hormonal desde 2018. Além disso, anexou documentos médicos informando que Dannyele também havia passado pela cirurgia de redesignação sexual, considerada irreversível. Apesar disso, naquele momento ela ainda não tinha conseguido alterar oficialmente o registro civil, o que acabou gerando toda a discussão durante o concurso.
Ao analisar o caso, o desembargador Luiz Fernando Boller entendeu que a ausência da alteração dos documentos não seria suficiente para impedir que ela fosse tratada de acordo com sua identidade de gênero. O magistrado lembrou ainda que o Supremo Tribunal Federal já possui entendimento reconhecendo a autodeterminação de gênero como um direito fundamental. Na avaliação dele, obrigar a candidata a disputar a prova física pelos critérios masculinos poderia configurar tratamento discriminatório.
Enquanto o processo era analisado, a Polícia Militar de Santa Catarina explicou que apenas havia seguido o que estava previsto no edital do concurso. Segundo a corporação, a convocação foi realizada utilizando o nome e os dados existentes no ato da inscrição, além das informações constantes nos documentos apresentados pela candidata naquele período.
Depois da decisão favorável, Dannyele conseguiu participar da prova física utilizando os mesmos parâmetros destinados às mulheres. Com a aprovação nas demais fases, ela foi convocada para iniciar oficialmente o curso de formação de soldados, etapa considerada uma das mais importantes antes da incorporação definitiva à corporação.
Nas redes sociais, Dannyele compartilhou a felicidade pelo resultado. Ela contou que enfrentou muitos desafios antes de chegar até esse momento e afirmou que a conquista representa uma grande vitória pessoal. Em uma das publicações, disse que viveu períodos difíceis quando ainda estava no Piauí e que finalmente conseguiu alcançar o objetivo que buscava há bastante tempo.
Ela também revelou que é católica e conservadora. Segundo seu relato, durante todo o processo judicial manteve a fé e chegou a rezar para Nossa Senhora pedindo que iluminasse a decisão do desembargador responsável pelo caso. Após a autorização da Justiça, afirmou que recebeu a notícia com muita emoção e gratidão.
Em outra mensagem publicada na internet, Dannyele fez questão de agradecer ao estado de Santa Catarina pela forma como foi recebida. Ela escreveu que sente uma enorme alegria por poder servir à população catarinense e destacou o carinho que desenvolveu pela região. Ainda comentou, em tom descontraído, sobre o clima frio do estado, dizendo que sempre sonhou em morar em um lugar assim e que ainda custava acreditar que estava vivendo aquele momento.
O caso repercutiu bastante porque envolve discussões sobre identidade de gênero, direitos fundamentais e regras previstas em concursos públicos. A decisão judicial chamou atenção justamente por considerar não apenas a documentação oficial da candidata, mas também sua condição atual e os entendimentos já firmados pelos tribunais superiores. Enquanto isso, Dannyele segue focada na formação militar, comemorando uma conquista que, segundo ela mesma descreveu, foi resultado de muita persistência, fé e anos de luta para realizar o sonho de vestir a farda da Polícia Militar de Santa Catarina.