O Interrogatório do Tenente-Coronel: A Controvérsia por Trás de um Feminicídio
A CNN Brasil teve acesso a um longo e complexo interrogatório que dura mais de oito horas do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, que é acusado do feminicídio de sua esposa, a soldado Gisele Alves Santana. Durante o depoimento, ele argumenta que foi alvo de uma armação por parte das peritas que estiveram envolvidas no caso, com o objetivo de incriminá-lo injustamente.
O Depoimento e suas Alegações
O interrogatório ocorreu na última segunda-feira, dia 5 de março, no Fórum Criminal da Barra Funda, localizado na zona oeste de São Paulo. Estavam presentes representantes do Ministério Público, o advogado da família de Gisele, e a defesa do tenente-coronel. Durante a audiência, o oficial fez várias acusações contra a equipe da perícia, alegando que eles teriam manipulado a cena do crime. Ele afirmou que, durante a reconstituição dos fatos, o sofá foi movido de maneira a obstruir sua visão do local onde a esposa estava, o que, segundo ele, prejudicou sua versão dos acontecimentos.
“No dia da reconstituição, as peritas deslocaram o sofá 50 cm para cá, para que ele tampasse a minha visão do chão da sala”, disse o tenente-coronel, evidenciando sua insatisfação com o processo.
A Árvore de Natal e Outras Irregularidades
Um aspecto peculiar mencionado por Neto foi a presença de uma árvore de Natal no quarto, que segundo ele, não deveria estar ali. Um policial havia previamente reportado que a árvore estava em cima da cama, e o tenente-coronel questionou a razão de um item decorativo tão específico estar presente em uma cena de crime. Ele alegou que as peritas remontaram a árvore de Natal com a intenção de obstruir sua visão durante a reconstituição, o que ele considera uma clara tentativa de manipulação.
“As peritas foram… remontaram a árvore, demoraram ali quase 10 minutos para remontar a árvore só para me acusar”, declarou o oficial, mostrando sua frustração com o que considera um processo injusto.
Críticas à Perícia e Preservação de Provas
Geraldo também fez críticas à maneira como a cena do crime foi tratada. Ele alega que a arma que teria sido utilizada no crime estava em um guarda-roupas de 1,90m de altura, enquanto um laudo indicava uma altura de 2,10m, o que ele considera uma discrepância significativa. Segundo ele, essa alteração foi feita para criar a narrativa de que Gisele não poderia alcançar a arma.
Além disso, ele mencionou que uma bolsa preta ao lado do armário poderia ter sido usada pela vítima como um degrau para alcançar a arma, e que esta bolsa foi removida antes da perícia. “O fluxo desordenado de pessoas no apartamento comprometeu a veracidade dos fatos”, afirmou, demonstrando sua desconfiança na condução da investigação.
Desconfiança na Polícia Civil
Durante o interrogatório, o tenente-coronel foi indagado sobre as mensagens trocadas entre ele e Gisele, que foram extraídas de seus celulares. Ele admite que havia discussões sobre a separação, mas afirma que essas mensagens estavam sendo utilizadas de forma errônea, alegando que eram apenas “blefes”.
“Antes de começar a perícia, a perita falou assim para mim: ‘O senhor pode falar o que for… Eu já tenho minha convicção que o senhor é culpado’”, recordou Neto, expressando sua indignação com o viés que percebe na investigação.
O Estado Atual do Caso
Geraldo foi preso preventivamente no dia 18 de março, um mês após a morte de Gisele Alves, e atualmente se encontra detido no Presídio Militar Romão Gomes, na zona Norte de São Paulo. Em seu depoimento, ele descreve sua rotina na prisão como um “pesadelo”, afirmando que está há 202 dias preso por um crime que não cometeu. Ele insiste na sua inocência, dizendo, “Eu não matei a minha esposa… E eu estou aqui, preso, sem ter feito isso”.
A soldado Gisele foi encontrada morta em seu apartamento no dia 18 de fevereiro. Inicialmente, a morte foi tratada como suicídio, mas as investigações evoluíram para um inquérito de feminicídio e fraude processual. Um laudo recente concluiu que Gisele não cometeu suicídio, apontando que era impossível ela ter atirado contra si mesma.
As investigações também apontaram vestígios de sangue nas roupas do tenente-coronel e indícios de que ele teria se banhado após o crime, possivelmente para eliminar provas. O Ministério Público considera que o homicídio foi motivado por questões de posse e rejeição do término do relacionamento, alegando que Gisele foi surpreendida sem chances de defesa.
Conclusão
O caso continua a gerar polêmica e debate, não apenas pela gravidade das acusações, mas também pela forma como as evidências estão sendo apresentadas e interpretadas. O futuro do tenente-coronel e as repercussões deste caso ainda estão por vir.