Na noite de sexta-feira, dia 6, o jornal O Globo decidiu responder publicamente a uma nota divulgada pelo gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. A manifestação do tribunal havia sido enviada à imprensa poucas horas antes e dizia, basicamente, que Moraes não seria o destinatário de certas mensagens atribuídas ao empresário Daniel Vorcaro no dia em que ele foi preso.
Segundo a nota do STF, uma análise técnica dos chamados dados telemáticos indicaria que os prints das conversas não estariam ligados ao contato do ministro no celular do executivo. Em outras palavras, a equipe técnica teria identificado que aquelas capturas de tela poderiam estar relacionadas a outros contatos salvos no aparelho. A informação acabou gerando bastante repercussão política e jurídica, principalmente nas redes sociais, onde o tema passou a ser discutido quase que imediatamente.
O O Globo, porém, afirma que a história não é bem assim. De acordo com a reportagem publicada pelo jornal, os dados utilizados não vieram apenas de uma comparação simples entre imagens ou datas das mensagens. O material analisado teria sido resultado de uma perícia técnica feita pela Polícia Federal. Esse tipo de análise permite visualizar simultaneamente a tela do WhatsApp e também imagens enviadas em modo de visualização única — algo que, segundo a reportagem, ajuda a confirmar a origem e o destino das mensagens.
Ainda conforme o jornal, os dados de contato foram checados com cuidado antes da publicação. No material exibido pela reportagem, aparece tanto o nome quanto o número associado ao ministro Alexandre de Moraes no momento do envio das mensagens. Para evitar exposição de dados pessoais, o número foi ocultado nas versões publicadas, tanto na edição impressa quanto na digital. A checagem dessas informações teria sido feita ao longo da quinta-feira, dia 5, com fontes que acompanham de perto o desenrolar do caso. Pelo menos foi isso que a reportagem explicou.
Outro ponto citado envolve um material que foi encaminhado à comissão parlamentar de inquérito do INSS. O documento inclui uma captura de tela do bloco de notas do celular de Vorcaro. Nela aparece uma pergunta escrita de forma direta: “Fiz uma correria aqui para tentar salvar. Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. De acordo com o jornal, essa mensagem teria sido enviada ao ministro e estaria relacionada à investigação que acabou resultando na prisão preventiva do empresário.
Além dessa conversa específica — que é justamente o centro da divergência — existem também outras mensagens no celular do executivo. Em uma delas, trocada com sua então namorada, a influenciadora digital Martha Graeff, aparece a menção a uma reunião com alguém chamado “alexandre moraes” em “Campos”. O detalhe chamou atenção porque surge no meio de uma troca informal de mensagens, sem muito contexto.
A lista de contatos do empresário também inclui nomes ligados ao círculo jurídico do ministro. Entre eles está a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Moraes, além do advogado Mágino Alves Barbosa Filho, que já teve atuação relevante no Ministério Público de São Paulo. Ele chegou a ocupar o cargo de subprocurador-geral de Justiça e também foi secretário de Segurança Pública no governo de Geraldo Alckmin.
Mesmo com todos esses elementos, a investigação parece estar sendo conduzida com cautela. Fontes ouvidas por veículos como a Folha de S.Paulo e o site Metrópoles afirmam que a Polícia Federal não encontrou, até agora, sinais de conduta irregular por parte do ministro do STF.
Essas mesmas fontes dizem que os registros indicam que Moraes e Vorcaro realmente chegaram a se falar em algum momento. O problema é que, até agora, não seria possível saber exatamente o conteúdo da conversa ou o contexto em que ela aconteceu. Isso contraria parcialmente a interpretação apresentada pela reportagem do O Globo.
Nos bastidores de Brasília, o episódio acabou virando mais um capítulo das disputas políticas e narrativas que costumam aparecer quando investigações envolvendo figuras públicas ganham visibilidade. Por enquanto, o que existe é uma disputa de versões — de um lado, a explicação técnica apresentada pelo STF; de outro, a interpretação jornalística baseada nos dados obtidos pela investigação. O desenrolar do caso ainda deve trazer novos detalhes, porque muita coisa continua meio em aberto, e ninguém quer cravar conclusões antes da hora.