Tempo de agir e tempo de pensar

A Verdade Por Trás da Polilaminina: O Que Precisamos Saber

Recentemente, um episódio do programa “Caçadores de Mitos” trouxe à tona uma experiência intrigante que nos faz refletir sobre os limites da ciência e da ética. No programa, foi testado se a tortura de deixar uma goteira pingando sobre a cabeça de uma pessoa realmente tinha efeitos psicológicos devastadores. Para quem não conhece, esse reality show científico era conhecido por desmistificar lendas urbanas, realizando experimentos práticos para verificar a veracidade de várias crenças populares.

Durante a gravação, uma estagiária consentiu em ser amarrada a uma maca, tendo sua cabeça fixada para não desviar das gotas que caíam incessantemente. Não demorou muito para que ela começasse a chorar, evidenciando o quão insuportável pode ser a sensação de perda de controle, algo que ninguém gostaria de experimentar. Uma especialista que foi entrevistada durante o episódio destacou como submeter alguém a uma situação de total impotência é algo extremamente agressivo, e isso nos leva a pensar sobre a natureza humana.

De fato, a privação de autonomia é um dos maiores estímulos aversivos que podemos enfrentar. Nós, seres humanos, temos uma necessidade intrínseca de sentir que podemos agir, mudar as circunstâncias e influenciar nosso destino. Essa urgência é, sem dúvida, um traço que ajudou na nossa sobrevivência ao longo da história: aqueles que não se resignavam facilmente às fatalidades provavelmente tinham mais chances de passar seus genes adiante para futuras gerações.

No entanto, essa mesma urgência pode se tornar um problema. Quando enfrentamos situações que estão além do nosso controle, muitas vezes nos sentimos compelidos a agir, mesmo que não haja justificativa racional para tal. Um exemplo que ilustra bem isso é o caso da polilaminina, uma substância que ganhou notoriedade como um potencial tratamento para pacientes com lesão medular.

Para resumir, a polilaminina gerou grande expectativa após alguns resultados preliminares em laboratórios, levando a uma crença popular de que poderia curar lesões medulares. Um estudo brasileiro, que ficou famoso, tinha como objetivo apenas verificar a viabilidade do uso da substância, e não sua eficácia, mas a percepção pública foi distorcida. De repente, muitos acreditaram que havia uma prova concreta de que a polilaminina poderia curar pessoas com esse tipo de lesão, o que não era verdade.

Após um breve entusiasmo na imprensa, que comparou o caso à famosa “pílula do câncer” da fosfoetanolamina, as manchetes começaram a mudar. Os veículos de comunicação, talvez aprendendo com a desinformação durante a pandemia de COVID-19, começaram a adotar uma postura mais cautelosa. Eles passaram a questionar sobre publicações revisadas por pares, grupos de controle e o tamanho da amostra, elementos que são cruciais para validar a eficácia de qualquer tratamento.

Embora essa mudança de abordagem seja positiva, é interessante notar como mesmo uma breve onda de entusiasmo pode levar a distorções. Em poucas semanas, a Anvisa recebeu uma avalanche de decisões liminares solicitando a aplicação da polilaminina, baseando-se no chamado uso compassivo, mesmo sem evidências concretas. Isso levanta questões éticas: o uso compassivo só deve ser justificado quando há indícios de eficácia, mesmo que não se tenha provas definitivas.

O tempo que a ciência leva para produzir resultados definitivos é muitas vezes mais longo do que gostaríamos, e em algumas situações, pode-se permitir o uso de medicamentos provisoriamente, desde que haja alguma evidência preliminar de segurança e eficácia. Porém, o caso da polilaminina não se encaixa nessa categoria. Muitas pessoas podem argumentar que, por não haver resultados negativos, a aplicação se justifica. No entanto, essa lógica é falaciosa. Também não existem provas de que infusões com chá de picão não funcionem, e não vemos decisões judiciais autorizando tal uso apenas por causa disso.

Entendo a posição do judiciário. Como mencionamos, o ser humano tem uma necessidade inata de agir, e diante do rumor de que a polilaminina poderia ser eficaz, a resposta foi uma onda de liminares autorizando seu uso. É natural querer fazer algo, mesmo que seja apenas um gesto simbólico.

Ainda que a polilaminina se prove eficaz no tratamento de lesões medulares, o que todos torcemos, é crucial que se deixe claro que, por enquanto, as provas são insuficientes. A falta de rigor na comunicação desse fato, mesmo que por um curto período, foi suficiente para intensificar a confusão e o desespero em torno de uma questão tão delicada como a saúde.



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