Só comida e bebida? Médico revela o que realmente provoca a gordura no fígado

Descrita pelo médico Lucas Nacif como uma espécie de “epidemia silenciosa”, a esteatose hepática — que muita gente conhece só como “gordura no fígado” mesmo — virou um problema que já atinge algo perto de 30% da população brasileira. É muita gente, quase como se cada três pessoas numa fila de padaria tivessem o mesmo diagnóstico sem nem perceber. E a situação fica ainda mais preocupante quando a gente olha os números divulgados pela Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH): mais da metade dos brasileiros, cerca de 61%, nunca fizeram ou nem sabem exatamente quais exames identificam essa condição. Por isso, muitos só descobrem a doença quando ela começa a avançar para situações mais graves, como cirrose ou até câncer no fígado.

A coluna da jornalista Claudia Meireles, sempre de olho nesses temas de saúde que acabam pegando o público de surpresa, conversou com o cirurgião do aparelho digestivo Lucas Nacif para entender de fato o que é que desencadeia a gordura no fígado. A pergunta parece simples, mas a resposta é um pouquinho mais complexa do que só apontar para o prato de comida. O especialista, que também é membro da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), explica que a alimentação “sim”, pode ser uma causa, mas está longe de ser a única vilã da história. Aliás, segundo ele, culpar só a comida é um erro comum — quase um atalho explicativo que atrapalha mais do que ajuda.

Nacif, que tem larga experiência com transplante hepático, destaca que há um conjunto de fatores que trabalham meio que em equipe para favorecer o acúmulo da gordura no órgão. Ele cita diabetes, as tais dislipidemias (que são desajustes nos níveis de colesterol, triglicerídeos ou até queda do famoso HDL, o “colesterol bom”), além do sedentarismo e da obesidade, que hoje são problemas gigantes no Brasil. Inclusive, basta lembrar que 2024 e 2025 foram anos em que muito se falou sobre isso, principalmente depois da explosão das famosas “injeções para emagrecer”, que dominaram redes sociais e até viraram pauta no Congresso.

Quando perguntado sobre outras possíveis causas, o médico reforça que a chamada síndrome metabólica é uma das mais importantes e talvez a menos compreendida pelo público. Ele explica que essa síndrome é um combo perigoso de condições que se juntam: pressão alta, triglicerídeos lá em cima, colesterol bom lá embaixo e níveis elevados de glicose. Quando tudo isso aparece junto, não só aumenta o risco de problemas cardíacos, derrame e diabetes tipo 2, como também empurra o organismo para desenvolver gordura no fígado de forma acelerada.

O especialista em cirurgias hepato, bilio e pancreáticas faz questão de lembrar que a esteatose, quando ignorada, pode progredir para estágios bem mais sérios. Primeiro surge a inflamação, depois a fibrose — que já é uma cicatrização mais rígida do tecido — e, em casos mais avançados, o quadro evolui para uma cirrose, que é uma condição irreversível e extremamente delicada. Segundo ele, “essa gordura vai se espalhando pelo órgão todo, atrapalhando as funções básicas e mexendo na estrutura dele”, o que faz o fígado perder boa parte da sua capacidade natural de proteção e filtragem.

E, no fim das contas, o alerta do médico acaba sendo uma espécie de recado geral: a esteatose hepática é silenciosa, comum e totalmente capaz de pegar qualquer pessoa desprevenida. Por isso, exames de rotina, alimentação equilibrada, atividade física e acompanhamento médico não são frescura, mas sim formas reais de evitar que esse problema aparentemente simples vire um drama bem maior lá na frente.



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