Sinal de Frank: após morte de Henrique Maderite, médico faz alerta assustador sobre quem tem essa dobrinha na orelha

Uma pequena dobra atravessando o lóbulo da orelha, em diagonal, quase como um risquinho que vai de cima para baixo, tem chamado a atenção de médicos há décadas. Conhecida como “sinal de Frank”, essa marquinha pode estar associada a um risco maior de problemas cardíacos. Não é sentença, não é diagnóstico fechado. Mas também não é algo que deva ser ignorado, segundo parte da comunidade médica.

O assunto voltou a circular nas redes depois da morte do empresário e influenciador Henrique Maderite, aos 50 anos, vítima de um infarto fulminante. Muita gente reparou que ele tinha uma dobra semelhante nas orelhas. Bastou isso para o tema viralizar. Em tempos de Instagram, TikTok e teorias rápidas, qualquer detalhe vira debate nacional. Só que, nesse caso, existe base científica — ainda que com ressalvas.

À primeira vista, a tal ruga parece só uma característica física, dessas que a gente nem nota no espelho. Porém, desde os anos 1970, pesquisadores investigam se essa prega pode funcionar como um alerta visível de envelhecimento precoce das artérias. Foi em 1973 que o médico norte-americano Sanders Frank publicou um artigo no respeitado “New England Journal of Medicine” descrevendo 20 pacientes com doença coronariana que apresentavam a dobra no lóbulo. A maioria já tinha fatores de risco conhecidos, como colesterol alto e pressão elevada.

De lá pra cá, diversos estudos tentaram entender a ligação entre o sinal de Frank e a aterosclerose — condição caracterizada pelo acúmulo de placas de gordura, colesterol e outras substâncias nas paredes das artérias. Esse processo reduz a passagem do sangue e pode levar ao infarto, AVC e outras complicações graves. Em resumo: não é brincadeira.

No Brasil, uma pesquisa da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp) analisou 110 homens que passaram por cineangiocoronariografia, exame que permite visualizar as artérias do coração. O resultado chamou atenção: 60% dos pacientes com doença coronariana apresentavam a prega diagonal no lóbulo, contra 30% no grupo sem a doença. E mais: quando a prega no lóbulo aparecia junto com a chamada prega pré-auricular, o valor preditivo positivo chegou a 90% para doença coronariana.

Parece alarmante? Calma. Os próprios autores destacaram que o mecanismo por trás dessa associação ainda não está totalmente esclarecido. Uma das hipóteses é que alterações microvasculares e perda de elasticidade da pele estejam relacionadas ao mesmo processo que endurece as artérias. Ou seja, a pele poderia estar refletindo algo que acontece por dentro.

O diretor científico do departamento de aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Marcio Miname, explica que há sim uma associação entre o sinal de Frank e doença coronariana, mas ele não é considerado um marcador independente. Em outras palavras: não dá para olhar a orelha de alguém e decretar que a pessoa tem problema no coração.

Além disso, muitos estudos são transversais e envolvem menos de mil pacientes. Isso limita conclusões mais definitivas. O próprio Miname reforça que, tendo ou não a dobra na orelha, todo mundo precisa acompanhar pressão arterial, colesterol, glicose e outros exames básicos. Não ter o sinal não significa estar protegido. E ter o sinal também não é garantia de doença.

Os marcadores clássicos continuam sendo os vilões de sempre: colesterol alto, hipertensão, diabetes, tabagismo, sedentarismo. Esses sim são comprovadamente determinantes. O resto é complemento, pista, indício.

Já o cardiologista João Vicente da Silveira, do Incor da USP, descreve o sinal como uma “luz vermelha que acende”. Especialmente quando surge em adultos jovens, pode gerar uma preocupação extra. Afinal, dificilmente alguém nasce com essa prega; ela costuma aparecer ao longo da vida, muitas vezes dos dois lados.

No fim das contas, talvez a grande lição seja outra. Em vez de correr para o espelho procurando uma ruguinha salvadora (ou assustadora), o melhor caminho ainda é o básico: check-up regular, alimentação equilibrada, atividade física e menos cigarro — ou nenhum. Porque coração não manda aviso por direct. Quando ele fala, geralmente já é tarde demais.

Confira:



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