Revoltados por não encontrarem mãos de obra, empresários detonam o Bolsa Família, entenda

Nos últimos dias, viralizou nas redes um aviso colado num restaurante que fica localizado na Zona Sul de São Paulo. O aviso continha a seguinte mensagem: “Srs. clientes, tenham paciência. O pessoal do Bolsa Família e da cervejinha não quer trabalhar”. Pois é, foi o suficiente para dar o que falar.

O tal aviso foi colocado no balcão do restaurante e rapidinho a foto rodou a internet. A galera caiu em cima, claro. Aí os proprietário dos estabelecimentos tiveram que vir a público e pedir desculpas.

Mas esse nem foi o único caso. Na mesma semana, teve um empresário que postou indignado que tava procurando gente pra descarregar um container e não achava ninguém. “Estou há 6 dias procurando 3 pessoas pra descarregar um container que chegará segunda-feira, não acho, ninguém quer fazer o mínimo de esforço, e olha que tem café ainda depois do serviço. 45 reais pra cada, 950 caixas, café após o serviço, ninguém quer”, reclamou o empresário do ramo de importação.

Esses dois episódios acabaram alimentando uma discussão que volta e meia aparece: será que o Bolsa Família desestimula o povo a trabalhar? Será que tem gente que prefere ficar em casa recebendo o benefício do que pegar no batente?

A questão é que o Brasil tá com o desemprego relativamente baixo — sim, tem muita gente procurando emprego, mas também tem vaga sobrando em algumas áreas. E com o Bolsa Família mais encorpado nos últimos tempos, o debate ganhou força.

Para quem não sabe, hoje o Bolsa Família atende mais de 20 milhões de famílias. Em 2019, antes da pandemia, eram por volta de 13,8 milhões. O valor mínimo do benefício também aumentou: era R$ 400 no fim do governo Bolsonaro e passou pra R$ 600 no governo Lula. Além disso, quem tem uma renda um pouco maior (até meio salário mínimo por pessoa) ainda pode seguir recebendo metade do benefício por até dois anos. Essa regra é chamada de “regra de proteção”.

Aí tem gente que fala que isso tudo faz o pessoal se acomodar. Mas será mesmo?

Economistas têm estudado esse tema. Um deles é o Gabriel Mariante, pesquisador da London School of Economics. Ele analisou dados de 2014 e descobriu que mulheres que recebem o Bolsa Família, principalmente mães com filhos pequenos, têm mais chance de arrumar emprego com carteira assinada. Já pros homens, o efeito não é tão forte.

Segundo ele, o dinheiro do benefício ajuda a pagar coisas como transporte, escola, creche, e isso facilita pra que as mães possam sair pra trabalhar. Ou seja, ao invés de atrapalhar, o Bolsa Família pode ajudar a pessoa a se organizar pra voltar ao mercado.

Um exemplo real é da Rosilene, de Anastácio (MS). Ela é mãe de dois filhos e, depois de perder o emprego em 2020, passou a viver com o auxílio emergencial e depois o Bolsa Família. Mesmo assim, nunca ficou parada — sempre fez bico, correu atrás.

Ano passado, conseguiu um emprego fixo como doméstica. Ganha um salário mínimo e ainda recebe metade do Bolsa Família por causa da tal regra de proteção. Ela conta que hoje consegue se virar melhor, mas ainda ouve muito preconceito. “Muita gente acha que quem recebe Bolsa Família é vagabundo, que só quer ficar de boa. Mas não é assim, é uma ajuda. A gente quer trabalhar sim.”

O debate tá longe de acabar. Mas parece claro que o buraco é mais embaixo. Não dá pra generalizar nem cair em discurso fácil. Tem muita gente no corre, fazendo o possível pra melhorar de vida — e, às vezes, o Bolsa Família é só uma ponte pra isso.



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