Quem era a PM, mulher de coronel, encontrada morta em circunstâncias misteriosas

A morte da policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, caiu como uma bomba entre amigos, familiares e colegas de farda. Ela foi encontrada sem vida dentro do apartamento onde morava, no bairro do Brás, região central de São Paulo, na última quarta-feira (18/2). Um disparo na cabeça. A arma, segundo informações iniciais, pertence ao marido.

Gisele tinha acabado de conquistar uma promoção para atuar no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Era um passo importante na carreira, algo que ela vinha buscando fazia tempo. Amigos dizem que ela estava feliz, animada com o aumento de salário e com a possibilidade de dar uma vida melhor para a filha pequena. Trabalhava desde os 17 anos, quando começou como caixa de supermercado na zona leste da capital. Sempre foi do Jardim Romano, bairro simples, de gente batalhadora. Aliás, quem conhece a região sabe que nada vem fácil.

Uma amiga, em conversa com o portal Metrópoles, descreveu Gisele como “centrada e determinada”. E essa talvez seja a palavra que mais combine com ela. Determinada. Queria ter o próprio dinheiro, a própria independência. Não queria depender de ninguém. Entrou para a Polícia Militar por escolha, não por acaso. E fazia questão de honrar a farda.

Só que por trás das fotos sorrindo e das conquistas profissionais, existia uma rotina que, segundo a família, estava longe de ser tranquila.

Gisele morava com o marido, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos. Foi nesse mesmo apartamento que ela foi encontrada morta. Em depoimento à Polícia Civil, a mãe da policial, Marinalva Vieira, contou que a filha vivia um relacionamento abusivo. Disse que, dias antes da tragédia, na sexta-feira (13/2), Gisele ligou chorando, desesperada. Falava que não aguentava mais a pressão. Pediu para o pai buscá-la.

Mas não foi.

Ainda de acordo com a mãe, havia controle excessivo. Proibição de usar batom. Perfume. Salto alto. Coisas que, para muita gente, podem parecer pequenas, mas que dizem muito. Gisele também teria tentado se separar. A reação do marido, segundo relato da família, foi de pânico. Ele teria enviado uma foto com uma arma apontada para a própria cabeça. Uma cena que, imagino, deve ter causado medo e culpa nela.

O pai chegou a se preparar para ir até o apartamento, mas Gisele mudou de ideia. Disse que ainda estava conversando sobre o término. E a conversa, ao que tudo indica, nunca terminou.

O caso foi inicialmente registrado como suicídio pela Secretaria da Segurança Pública. A SSP informou que, por esse motivo, não divulgaria detalhes. O marido foi ouvido e exames periciais estão sendo aguardados para esclarecer se houve, de fato, um ato voluntário ou algo diferente. Até lá, o silêncio oficial contrasta com o barulho das suspeitas nas redes sociais, onde o debate sobre violência doméstica ganha força a cada novo caso.

O sepultamento aconteceu nesta sexta-feira (20/2), em Suzano, na Grande São Paulo. Clima de revolta, dor e incredulidade. Colegas de farda compareceram. Amigos também. Uma filha pequena ficou.

É impossível não pensar em quantas mulheres vivem situações parecidas, muitas vezes caladas. O Brasil registra números alarmantes de violência contra a mulher ano após ano. E quando a vítima é uma policial, alguém treinada para proteger, a sensação é ainda mais amarga. Como pode?

A história de Gisele mistura conquista e tragédia. Força e fragilidade. Independência financeira e dependência emocional. Nada é simples. E talvez seja isso que mais machuca: a percepção de que, mesmo forte, mesmo preparada, mesmo determinada, ela pode ter se sentido sozinha.

Agora, resta aguardar os laudos. Mas, para a família, a dor já está dada. E não há perícia que explique o vazio que fica.



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