Débora Leite dos Santos, de 42 anos, entrou para a brigada do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) após perder o filho de apenas 5 meses em 2020, durante os incêndios que devastaram o Pantanal. Ao G1, a brigadista relatou que o trabalho no combate ao fogo foi a maneira que encontrou de contribuir para que outras mães não passem pela mesma situação.
“Se eu puder diminuir um pouco dessa situação tão triste e não deixar que aconteça com outra mãe o mesmo que eu vivi, já valeu a pena. Eu dou o melhor de mim para acabar com o fogo e outras pessoas viverem melhor. Quando eu estou combatendo o fogo eu penso no meu filho, sem esse trabalho a depressão teria me matado”, compartilha a brigadista.
O pequeno Gabriel David nasceu em maio de 2020, abaixo do peso e com problemas respiratórios. Após algumas semanas do nascimento, foi diagnosticado com síndrome de artrogripose renal colestática (ARC). Sua mãe acredita que a quantidade de fumaça que invadiu Corumbá (MS) naquele ano complicou seu quadro de saúde, e ele veio a falecer cinco meses depois. Em 2020, mais de 4 milhões de hectares foram consumidos pelo fogo no Pantanal.
Débora detalha que durante todo o pré-natal não foi identificada nenhuma alteração nos exames de Gabriel Davi. Ele nasceu em Corumbá, mas devido à gravidade do quadro de saúde, precisou ser transferido algumas horas depois do nascimento para Campo Grande.
“No dia seguinte do nascimento eu descobri que tinha algo errado e ele precisava ser examinado. Em Campo Grande fizemos vários testes e tivemos o diagnóstico, foi um choque”.
Após o diagnóstico, Débora conta que o pequeno Gabriel Davi passava parte do tempo com oxigênio portátil. Ele ficava no máximo 10 minutos por dia sem o oxigênio, mas isso foi agravado durante o período dos incêndios que atingiram o Pantanal de Corumbá, cidade onde a família morava.
Mesmo com a rotina de exames e a falta de ar, Débora descreve Gabriel Davi como uma criança forte e amorosa. Ela mencionou: “Eu tirava o oxigênio por alguns minutos apenas para tomar banho, só que logo veio o período de queimadas e a cidade foi tomada pela fumaça e não tirava mais em nenhum momento do dia. Ele ficava ofegante, íamos para a UPA, mas não tinha o que fazer porque a fumaça estava em todo lugar. Em 2020, a fumaça chegou a outros estados; para onde eu poderia levar meu filho?”
“Foi tudo muito rápido, ele estava ofegante durante a noite, meu esposo foi trabalhar cedo, colocou ele no meu colo para amamentar e de repente ele não estava mais respirando. Corremos para o hospital, tentaram reanimar o meu Gabriel, mas não tinha o que fazer. Ele aguentou muito essa fumaça e foi um guerreiro”.
Débora se tornou brigadista do Ibama/Prevfogo em 2023 após ser convidada por um amigo para participar do processo de seleção.
“Eu não gostava de brigadistas, sempre quis jogar a culpa em alguém pelo o que aconteceu com o meu filho. Sempre achei que os brigadistas não trabalhavam porque sempre tinha muita fumaça na cidade e meu filho morreu por isso. Hoje eu sei que o culpado é que ateou fogo no Pantanal”.
A brigadista detalha que o processo de seleção conta com algumas etapas como: cursos sobre o manejo do fogo e ferramentas usadas no trabalho, carpir uma área de 5×5 em até 25 minutos, caminhar por 7km com ferramentas, entre outras demandas.
