Por que trabalhar mais não garante crescimento

O Dilema da Produtividade: Desafios e Oportunidades nas Empresas Modernas

A busca incessante por produtividade tem levado muitas empresas a investir pesadamente em inteligência artificial, a revisar suas estruturas internas e a exigir cada vez mais de suas equipes. Contudo, essa pressão nem sempre resulta em crescimento real. Profissionais sobrecarregados, com responsabilidades em expansão, frequentemente se veem lutando para encontrar tempo para as atividades que realmente geram resultados significativos.

Aumento da Carga de Trabalho

Dados recentes indicam que no Brasil, cerca de 63% dos trabalhadores afirmam que sua carga de trabalho aumentou de forma significativa nos últimos dois anos. Além disso, quase metade dos entrevistados, ou seja, 47%, relatam estar tão ocupados que não conseguem apresentar resultados relevantes. Outro dado alarmante é que 50% sente que as exigências feitas a eles estão além de suas capacidades.

Essas informações são parte do estudo Workforce 2026 – A Ilusão do Crescimento, realizado pela consultoria Korn Ferry, que ouviu mais de 16 mil profissionais, desde analistas até CEOs, em 11 mercados diferentes. O levantamento destaca uma notável desconexão entre as estratégias traçadas pela alta liderança e as condições reais enfrentadas pelas equipes que precisam colocá-las em prática.

Desafios da Inteligência Artificial

Embora a inteligência artificial tenha o potencial de reduzir o tempo gasto em tarefas repetitivas, uma parte significativa dos brasileiros entrevistados — cerca de 52% — afirma que, em vez disso, a IA aumentou o número de tarefas que eles precisam cumprir. Muitas vezes, novas ferramentas são implementadas sem uma revisão adequada dos processos já existentes. Assim, os profissionais aprendem a usar essas novas tecnologias, mas acabam se sentindo sobrecarregados, pois suas responsabilidades não diminuem, apenas se acumulam.

Essa expansão das ferramentas tecnológicas exige que as empresas façam escolhas difíceis sobre como integrá-las aos processos já existentes e às diferentes áreas do negócio. Segundo Vinícius De Luca, presidente de Consultoria para a América do Sul da Korn Ferry, transformar essa inovação em resultados requer governança: é crucial ter critérios claros, mensurar impactos e garantir um ambiente seguro para que a inovação possa acontecer em larga escala.

Redistribuição de Tarefas e Estruturas Enxutas

A redistribuição de tarefas também está atrelada a estruturas organizacionais mais enxutas. No Brasil, aproximadamente 59% dos entrevistados afirmam que desempenham funções que abrangem mais de uma função. Além disso, 46% relatam que suas organizações diminuíram o número de gestores. Com menos líderes disponíveis para oferecer orientação, cerca de 40% dos profissionais se sentem à deriva, sem a direção necessária.

O acúmulo de responsabilidades não necessariamente vem acompanhado do suporte adequado. Para lidar com isso, o relatório sugere que as empresas estabeleçam prazos, definam expectativas claras e revisem as estruturas de remuneração de acordo com as novas atribuições.

Perspectivas de Crescimento e Motivação

A questão salarial é outro ponto crítico a ser considerado. Embora 59% dos brasileiros acreditem que sua remuneração é justa em relação às responsabilidades adicionais, um notável 77% menciona a baixa remuneração como um dos principais motivos para considerar uma mudança de emprego. Isso revela que, mesmo que as pessoas reconheçam que suas responsabilidades estão sendo compensadas, a preocupação com os níveis salariais ainda persiste.

Para as gerações mais jovens, como a geração Z e os millennials, as perspectivas de crescimento profissional são especialmente importantes. O relatório sugere que as empresas devem oferecer oportunidades de desenvolvimento e estabelecer expectativas claras sobre as responsabilidades atribuídas. Como afirma Araújo, “a motivação não desaparece de uma hora para outra. Ela se perde quando o esforço não encontra significado, reconhecimento e condições para gerar impacto”.

Eficiência vs. Inovação

Outro aspecto importante é que a pressão por resultados muitas vezes interfere na capacidade de desenvolver novas ideias. De acordo com o estudo, 63% dos entrevistados afirmam que suas empresas priorizam a eficiência em detrimento da busca por novas maneiras de agregar valor. Além disso, 53% consideram que processos existentes limitam seu desempenho. Embora a maioria dos entrevistados reconheça que seus gestores incentivam a experimentação, as condições do dia a dia muitas vezes não favorecem essa inovação.

As empresas precisam não apenas incentivar a inovação, mas também reavaliar seus processos e prioridades para criar um ambiente onde novas ideias possam ser implementadas. Essa reorganização deve incluir uma atenção especial ao papel das lideranças, especialmente em empresas que reduziram suas estruturas gerenciais. Como De Luca ressalta, “proteger a capacidade gerencial é uma decisão de negócio, porque nenhuma organização se sustenta quando seus líderes não têm tempo e condições para liderar”.

Para concluir, a busca por produtividade é um tema complexo que envolve muitos fatores, desde a implementação de novas tecnologias até a gestão de pessoas. As empresas que conseguirem equilibrar esses aspectos estarão mais bem posicionadas para prosperar em um ambiente de negócios em constante mudança.



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