Os cães e os gatos podem estar envolvidos na circulação de uma das bactérias mais resistentes aos antibióticos conhecidas atualmente. Essa é a conclusão de um estudo publicado no dia 15 de junho na revista Applied and Environmental Microbiology. A pesquisa identificou uma semelhança genética muito grande entre amostras da bactéria Acinetobacter baumannii encontradas em animais de estimação e em pacientes humanos. Esse resultado levanta a possibilidade de que exista transmissão entre as duas espécies, embora isso ainda não tenha sido comprovado de forma direta.
A Acinetobacter baumannii é considerada uma das bactérias que mais preocupam especialistas em saúde. Ela costuma provocar infecções graves, principalmente em pessoas hospitalizadas ou com o sistema imunológico enfraquecido. O grande problema é que esse microrganismo apresenta resistência a vários antibióticos, inclusive alguns usados apenas quando outros tratamentos já não funcionam. Por causa disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica essa bactéria como um patógeno de prioridade máxima para o desenvolvimento de novos medicamentos.
Nos últimos anos, pesquisadores passaram a investigar se essa bactéria também poderia circular entre pessoas e animais domésticos. Como cães e gatos vivem muito próximos dos seus tutores, dividindo muitas vezes o mesmo ambiente dentro de casa, surgiu a dúvida sobre o papel desses animais na disseminação do microrganismo.
O estudo foi realizado por cientistas da Universidade Agrícola de Nanjing, do Instituto de Tecnologia de Wuhu e da Universidade de Medicina Chinesa de Nanjing. A pesquisa começou depois que a bactéria foi identificada em embriões de galinhas e patos que morreram antes mesmo da eclosão. A partir dessa descoberta, os pesquisadores decidiram ampliar a investigação e comparar amostras obtidas em diferentes espécies de animais e também em seres humanos.
No total, foram analisadas 509 amostras da bactéria coletadas em 17 países, envolvendo 33 espécies animais. Esses dados ainda foram comparados com milhares de amostras obtidas de pacientes humanos. Durante a análise, os cientistas perceberam uma diferença importante. As cepas encontradas em aves, animais silvestres e animais de produção eram bem diferentes daquelas presentes em pessoas.
Já nos cães, gatos e cavalos o cenário foi outro. As bactérias isoladas nesses animais eram praticamente iguais às encontradas em hospitais das mesmas regiões. Segundo os pesquisadores, a semelhança genética ultrapassava 99% e, em alguns casos, chegava a mais de 99,5%. Esse nível de proximidade chamou bastante a atenção da equipe.
Outro ponto considerado preocupante foi a presença, em cães e gatos, de genes responsáveis pela resistência aos carbapenêmicos. Esses antibióticos são considerados uma das últimas alternativas para tratar infecções bacterianas muito graves. Curiosamente, esses mesmos genes não apareceram nas amostras coletadas em aves, animais silvestres ou animais destinados à produção.
De acordo com os autores do estudo, o contato frequente entre tutores e seus animais pode favorecer a circulação dessa bactéria. Afinal, é comum que cães e gatos convivam de forma muito próxima com as pessoas, compartilhando sofás, camas e outros espaços da casa.
Mesmo assim, os próprios pesquisadores fazem um alerta importante. O trabalho não demonstra que um cachorro ou um gato tenha transmitido diretamente a bactéria para uma pessoa. O que foi identificado são fortes evidências genéticas de que as mesmas cepas circulam entre humanos e animais de estimação. Ainda não se sabe exatamente quando essa transmissão aconteceu, nem em qual direção ela ocorreu.
Os cientistas destacam que novas pesquisas serão fundamentais para acompanhar a circulação da Acinetobacter baumannii em pessoas e animais ao longo do tempo. Com estudos mais detalhados, será possível entender melhor a frequência desse tipo de transmissão e desenvolver estratégias para reduzir a disseminação de bactérias resistentes aos antibióticos, um desafio que continua sendo uma das maiores preocupações da saúde pública em todo o mundo.