Fora do comando do PL Mulher, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro decidiu seguir outro caminho para manter a participação das mulheres na política. Na última quinta-feira (9), ela lançou o movimento chamado “Imparáveis”, uma iniciativa criada para dar continuidade ao trabalho que vinha sendo desenvolvido durante sua passagem pela ala feminina do Partido Liberal.
O novo projeto nasceu ainda dentro da equipe que atuava no PL Mulher. Mesmo sem ligação oficial com o partido daqui pra frente, a ideia é aproveitar parte da estrutura organizacional construída nos últimos anos. Pessoas que trabalharam diretamente com Michelle devem continuar colaborando, mas agora de forma voluntária.
A mudança aconteceu depois que Michelle deixou a presidência do PL Mulher. Logo em seguida, o presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, decidiu extinguir a presidência nacional da ala feminina, mantendo apenas os diretórios estaduais. Com isso, a equipe que fazia parte da estrutura do PL Mulher deixou de integrar o quadro de funcionários da legenda, e o escritório utilizado pelo grupo em Brasília deverá ser desocupado até o fim deste mês.
Segundo integrantes do movimento, o “Imparáveis” pretende incentivar uma participação maior das mulheres na política e em outras áreas da sociedade. Apesar de ter surgido entre pessoas ligadas ao Partido Liberal, os organizadores afirmam que o projeto não terá vínculo partidário oficial. A proposta é reunir mulheres com interesses em comum, promovendo debates, encontros e ações voltadas para liderança feminina.
Michelle Bolsonaro continuará sendo a principal representante da iniciativa. Durante o período em que esteve à frente do PL Mulher, mais de 72 mil mulheres se filiaram ao partido, número frequentemente citado por aliados como um dos principais resultados da gestão dela. Agora, a expectativa é manter essa rede de apoiadoras ativa, mesmo fora da estrutura partidária.
O lançamento do movimento já começou a ganhar espaço nas redes sociais. Uma das primeiras publicações traz um vídeo inspirado em cenas do filme “Mulher-Maravilha”, lançado em 2017. Nas imagens adaptadas, a personagem aparece enfrentando ataques que, na versão divulgada pelo grupo, representam pessoas classificadas como “mentirosos”. A mensagem que acompanha o vídeo diz que, mesmo diante das dificuldades, é preciso seguir em frente com coragem.
A criação do novo movimento acontece poucas semanas depois da crise envolvendo Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência da República. O desentendimento ganhou repercussão nacional após Michelle divulgar vídeos afirmando que havia sido humilhada e desrespeitada pelo enteado.
Depois da repercussão negativa, Michelle participou de uma reunião com Valdemar Costa Neto. De acordo com informações divulgadas na época, o dirigente do partido pediu que ela fizesse uma manifestação pública em apoio a Flávio para reduzir o desgaste político. Michelle preferiu não atender ao pedido e optou por deixar o cargo que ocupava na legenda.
Flávio Bolsonaro respondeu às declarações afirmando que nunca teve a intenção de ofender Michelle. Ele chegou a dizer que, caso tenha cometido algum erro, pedia desculpas novamente. Também declarou que pretendia convidá-la para uma reunião com lideranças femininas, mas aliados da ex-primeira-dama afirmaram que esse convite nunca chegou oficialmente até ela.
Mesmo depois da crise, integrantes da pré-campanha de Flávio continuam tentando aproximar o senador do eleitorado feminino e também do público evangélico, grupos considerados estratégicos para a eleição de 2026. Algumas aliadas de Michelle seguem participando de eventos públicos, embora outras tenham evitado aparecer em atos ligados ao senador.
Um dos estados onde a disputa interna ficou mais evidente foi o Ceará. A direção estadual do PL iniciou conversas para uma possível aliança com o grupo político de Ciro Gomes, estratégia defendida por André Fernandes e apoiada por Jair Bolsonaro. O objetivo seria fortalecer a oposição ao governo estadual nas eleições do próximo ano.
Michelle, porém, preferia outro caminho. Ela defendia o apoio ao senador Eduardo Girão para disputar o governo estadual e queria uma chapa formada por Alcides Fernandes e Priscila Costa para o Senado. Com o acordo envolvendo outros partidos, apenas uma vaga ficou destinada ao PL, beneficiando Alcides e deixando Priscila fora da composição. A ex-primeira-dama afirma que essa decisão não refletia a vontade de Jair Bolsonaro, enquanto André Fernandes e Flávio negam essa versão. O episódio acabou aprofundando ainda mais a divisão dentro do grupo político.