Na última sexta-feira, 12 de setembro, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) lançou mais uma de suas cruzadas virtuais. Dessa vez, a bandeira erguida por ele foi uma campanha para denunciar pessoas que teriam feito piadas ou comentários irônicos sobre a morte do militante norte-americano de extrema-direita Charlie Kirk. Segundo Nikolas, esses perfis estariam “relativizando” ou mesmo “debochando” da tragédia.
Mas, sejamos francos: acreditar que o deputado está preocupado de verdade com a memória de Kirk é no mínimo ingenuidade. A jogada tem outro propósito, muito mais político. No fundo, a meta de Nikolas é simples — e ao mesmo tempo ousada: enterrar de vez a imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro. Vale lembrar que Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão pelo STF, acusado de liderar uma organização criminosa responsável pela tentativa de golpe de Estado em janeiro de 2023. A decisão saiu na quinta-feira, dia 11, e desde então a base bolsonarista se mostra cada vez mais fragmentada.
O recado de Nikolas é direto: ele já não precisa de Bolsonaro para mobilizar multidões. Sem o “mito” no centro, o jovem deputado conseguiu, em poucas horas, transformar sua campanha numa onda que envolveu empresas como a Vogue, universidades tradicionais como a PUC-RS e até trechos da grande imprensa. O efeito foi imediato nas redes sociais, mostrando que existe espaço para uma nova liderança na extrema direita, menos dependente da sombra do ex-presidente.
Essa estratégia, no entanto, não é apenas sobre denúncia de perfis. A narrativa de Nikolas é difusa e direcionada contra diferentes alvos: professores, médicos, universidades públicas, artistas. A ideia central é sempre a mesma — pintar o quadro de que o Brasil estaria “dominado” por uma esquerda maléfica, que precisa ser combatida.
No próprio dia 12, Nikolas escreveu no X (antigo Twitter): “O movimento começou: demita os verdadeiros extremistas de sua empresa. Denuncie.” A mensagem, curta e direta, se espalhou feito rastilho de pólvora.
Pouco depois, ele foi ainda mais longe, atacando as universidades brasileiras. Para ele, os campi acadêmicos estariam formando pessoas “que incentivam matar inocentes por desavença política”, tudo isso mascarado em discursos de amor, democracia e tolerância. O tom apocalíptico não parou por aí: em outro post, afirmou que as universidades viraram “laboratórios de degeneração moral”, onde “canalhas são tratados como intelectuais críticos”. Quem se opõe a essa narrativa, segundo ele, acaba tachado de “louco ou extremista”.
Essa retórica incendiária encontrou eco. Uma busca rápida no X pelo termo “demita um esquerdista” mostra dezenas de perfis dizendo que vão recusar clientes ou até deixando no ar a ideia criminosa de que médicos do SUS estariam abandonando pacientes de direita. Um discurso que beira a irresponsabilidade, mas que, infelizmente, tem ganhado tração.
É importante lembrar também que Nikolas não atua sozinho. O Movimento Brasil Livre (MBL) aparece como parceiro nessa nova fase. Renan Santos, uma das principais vozes do grupo, chegou a defender publicamente a criminalização de ideias de esquerda. Essa aproximação sinaliza que há um esforço coordenado para abrir espaço a uma direita “renovada”, sem Bolsonaro como figura central.
O que se desenha, então, é uma estratégia calculada: além de “sepultar” o bolsonarismo, esse grupo jovem da extrema direita busca corroer o tecido social brasileiro. A tática não é nova. Historiadores lembram que algo parecido aconteceu na Itália, quando líderes da extrema direita apostaram no caos e no medo como ferramentas de mobilização. O mesmo roteiro parece estar sendo encenado agora por Nikolas Ferreira e seus aliados.
No final das contas, não se trata apenas de uma campanha pontual. É um projeto de poder. O discurso do ódio, o incentivo à perseguição política e a tentativa de deslegitimar instituições não são acasos: são peças de um xadrez maior, onde a meta final é instaurar o caos como forma de governar.