O inverno passado no hemisfério Norte foi bem tenso. Tiveram vários surtos de vírus respiratórios, como a gripe, a Covid-19 e, principalmente, o VSR (vírus sincicial respiratório). Todo mundo falava disso. Mas aí, quando parecia que a coisa ia melhorar, apareceu um vírus que nem todo mundo conhece, mas que tem os mesmos sintomas que os demais vírus. Tipo tosse seca, dor de garganta, febre, coriza, e até uma infecção pulmonar mais pesada. Esse vírus é o metapneumovírus humano, o MPVh, que foi ganhando força, principalmente na primavera lá do Norte.
Segundo os dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), os casos aumentaram bastante. O negócio ficou tão feio que as UTIs dos hospitais estavam lotadas de crianças pequenas e idosos – as pessoas mais vulneráveis a esse tipo de infecção. Em meados de março, os números estavam lá em cima, com quase 11% das amostras dando positivo para o MPVh, o que é bem mais do que a média de 7% antes da pandemia.
O curioso é que, na verdade, muita gente que pegou o vírus nem soube. Isso porque, geralmente, a galera só faz o teste em casos mais graves, tipo no hospital ou no pronto-socorro. Fora isso, quem tem o MPVh nem chega a ser testado. E o mais complicado: não tem vacina nem remédio antiviral pra esse vírus. Então, os médicos acabam tentando apenas aliviar os sintomas das pessoas mais graves.
A questão é que o MPVh tem sido uma ameaça bem subestimada. Estudos já mostraram que ele causa tanto impacto quanto a gripe e o próprio VSR. Tem um estudo que pegou amostras de pacientes de 25 anos e mostrou que o MPVh foi a segunda causa mais comum de infecções respiratórias em crianças – só perdendo pro VSR. Outro estudo, feito em Nova York durante quatro invernos, revelou que o MPVh atingia os idosos hospitalizados tanto quanto o VSR e a gripe. E, como esses outros vírus, o MPVh pode levar a quadros de pneumonia grave, com necessidade de cuidados intensivos, principalmente nos mais velhos.
Eu lembro de uma história da Leigh Davidson, uma mulher de 59 anos de Baltimore. Ela pegou o metapneumovírus humano depois de uma festa de família, lá no começo de abril. Duas semanas depois, a mulher estava tossindo tão forte que não conseguia nem falar ao telefone. Ela conta que a tosse era tão violenta que quase fez ela vomitar. Pensando que tinha pegado Covid-19, ela fez seis testes rápidos, mas todos deram negativo. Ela, que tem o sistema imunológico mais fraco, ficou com medo de que fosse uma pneumonia e fez um raio-X. A boa notícia é que o exame deu normal, mas o médico dela não ficou satisfeito e mandou ela para o pronto-socorro. E foi lá que descobriram que ela estava com MPVh. Ela ficou chocada: “Eu nunca ouvi falar disso antes!”, disse.
Esse vírus foi descoberto em 2001, na Holanda, por cientistas que estavam investigando algumas infecções respiratórias misteriosas em crianças. Algumas delas ficaram bem doentes, precisando de ventilação mecânica, mas os testes para outros vírus não deram positivo. Então, os pesquisadores fizeram um trabalho pra descobrir o que era aquele agente. Eles conseguiram cultivar as amostras em células de macacos, galinhas e até de cachorros, e foi aí que, com um microscópio eletrônico, viram que aquilo parecia com outros vírus respiratórios, como o VSR e o sarampo. E foi assim que o MPVh foi identificado.
Aí, quando fizeram testes em amostras de sangue antigas, de 1958, descobriram que já tinha gente sendo exposta ao MPVh há muito tempo, só que sem saber. Isso mostra que o vírus circula entre os humanos há décadas, sem nunca ter sido detectado de verdade.
Enfim, apesar de não ser tão falado, o MPVh tá aí, representando uma ameaça maior do que muita gente imagina. E, como não tem vacina nem tratamento específico, o jeito é tentar prevenir e lidar com os sintomas enquanto os médicos buscam uma solução mais eficaz.