Nesta terça-feira (7), a Meta anunciou uma mudança significativa na forma como lida com a moderação de conteúdo em suas plataformas. A empresa, dona de redes como Facebook, Instagram, WhatsApp e Threads, decidiu encerrar o programa de checagem de fatos realizado por organizações independentes. No lugar, a Meta passará a contar com os próprios usuários para sinalizar e corrigir informações falsas ou enganosas, adotando um modelo semelhante ao das Notas da Comunidade do X (antigo Twitter).
Mark Zuckerberg, CEO da Meta, afirmou em um vídeo divulgado à imprensa que a nova abordagem marca um retorno às “raízes da liberdade de expressão” da empresa. Segundo ele, o programa anterior apresentava falhas graves: “Havia muitos erros e muita censura”. A transição começa nos Estados Unidos e deverá se expandir para outros países em breve.
Nova estratégia segue modelo do X e agrada conservadores
O novo protocolo da Meta ecoa a estratégia implementada por Elon Musk no X, em que os próprios usuários contribuem para adicionar contexto e corrigir publicações potencialmente enganosas. Desde que Musk assumiu a plataforma, ele se posicionou como defensor da liberdade de expressão e estabeleceu o X como um espaço de debate político mais favorável à direita americana, incluindo o ex-presidente Donald Trump.
Zuckerberg também destacou que as eleições presidenciais de 2024 nos EUA foram um “ponto de inflexão cultural” para a decisão de priorizar novamente o discurso público. A mudança parece ser uma tentativa da Meta de reaproximar-se de políticos conservadores, especialmente após anos de críticas de que suas práticas de moderação eram tendenciosas contra vozes da direita.
Relações renovadas com Trump e aliados
A Meta tem dado sinais de que busca estreitar laços com Trump e seu círculo. Em novembro, após a vitória do republicano nas eleições presidenciais, Zuckerberg participou de um jantar em Mar-a-Lago, residência do ex-presidente, e se reuniu com outros líderes conservadores, como Marco Rubio. Além disso, a empresa doou US$ 1 milhão para a posse de Trump e nomeou Joel Kaplan, um veterano republicano, para o cargo político mais alto da companhia.
Recentemente, Kaplan apareceu no programa Fox & Friends, conhecido por seu público conservador, para falar sobre as mudanças na moderação de conteúdo. Ele afirmou que a decisão reflete uma tentativa de reduzir o “viés político” percebido nas políticas da Meta. “Essa mudança significa muito menos repressão excessiva e mais espaço para o debate livre”, disse Kaplan.
Fim de uma era: o programa de checagem de fatos
O programa de checagem de fatos da Meta foi lançado em 2016, após a eleição de Donald Trump, quando o Facebook foi amplamente criticado pela disseminação descontrolada de desinformação. Publicações patrocinadas por governos estrangeiros e outras fontes maliciosas teriam influenciado a opinião pública, gerando uma pressão enorme sobre Zuckerberg para agir.
Na época, a Meta firmou parcerias com entidades como Associated Press, ABC News e Snopes, além de outras organizações globais certificadas pela International Fact-Checking Network. Esses grupos eram responsáveis por analisar conteúdos potencialmente falsos no Facebook e Instagram, notificando os usuários ou removendo publicações problemáticas.
Contudo, a relação com as agências de checagem nem sempre foi tranquila. Críticos, especialmente da ala conservadora, argumentavam que o programa promovia censura e tinha viés ideológico.
Impactos e reestruturação
Entre as mudanças anunciadas, Zuckerberg destacou a remoção de restrições sobre tópicos sensíveis, como imigração e gênero, que, segundo ele, estavam “fora de sintonia com o discurso dominante”. Além disso, a empresa planeja transferir suas equipes de confiança e segurança da Califórnia para o Texas, buscando descentralizar a moderação de conteúdo e reduzir preocupações sobre viés político entre os funcionários.
Zuckerberg argumentou que essa reestruturação ajudará a “eliminar a percepção de que há censura excessiva” nas plataformas da Meta. Ao mesmo tempo, reforçou que a decisão de confiar nos usuários para moderação de conteúdo representa um esforço para equilibrar liberdade de expressão e responsabilidade.
Um futuro incerto para a moderação online
Especialistas veem a mudança como uma jogada arriscada. Permitir que os próprios usuários atuem como moderadores pode resultar em maior liberdade, mas também traz o risco de amplificar a desinformação, especialmente em períodos politicamente polarizados, como eleições.
Enquanto a Meta se alinha aos moldes do X e tenta reconquistar a confiança de setores conservadores, a decisão de abandonar a checagem de fatos realizada por entidades independentes marca o fim de uma política que visava combater a desinformação. Resta saber se o novo modelo conseguirá equilibrar os interesses políticos e os desafios de manter um ambiente digital saudável.