A madrugada do dia 2 de setembro trouxe uma notícia que caiu como um baque no meio jornalístico brasileiro: a morte de Mino Carta, um dos nomes mais marcantes da imprensa nacional. Entre as muitas manifestações que surgiram logo cedo, uma das mais emocionadas veio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que mantinha com Mino uma amizade de mais de cinco décadas. Não era apenas a relação de um chefe de Estado com um jornalista, mas de dois homens que, cada um à sua maneira, ajudaram a escrever páginas importantes da história do Brasil.
Lula, em nota oficial, não escondeu o tom pessoal de sua despedida. “Recebi com muita tristeza a notícia da morte de meu amigo Mino Carta, ocorrida na madrugada deste 2 de setembro”, escreveu o presidente. A mensagem foi direta, sem floreios, mas cheia de significado. “Ele fez história no jornalismo brasileiro: criou e dirigiu algumas de nossas principais revistas”, completou, destacando a relevância do fundador da CartaCapital para o debate público e para a defesa da democracia.
Não é exagero dizer que Mino foi um divisor de águas na imprensa nacional. Ao longo de sua trajetória, ele ajudou a criar publicações que moldaram a opinião pública durante décadas: Veja, IstoÉ, Quatro Rodas, CartaCapital, além de passagens marcantes pelo Jornal da Tarde e o Jornal da República. Sua capacidade de enxergar o jornalismo como ferramenta de transformação política e social sempre foi sua marca registrada — e também, por vezes, alvo de polêmicas. Afinal, quem se arrisca a contrariar interesses poderosos quase sempre paga um preço.

Lula lembrou que sua própria história pública também se cruza com a de Mino. Em 1978, quando ainda era apenas o combativo líder do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, foi em uma revista dirigida por ele que o futuro presidente concedeu sua primeira grande entrevista. “Foi ele quem abriu espaço para minha primeira capa de revista, na IstoÉ, em 1978”, destacou. Para quem hoje ocupa a cadeira mais alta do país, esse detalhe é carregado de simbolismo: mostra como o olhar de um jornalista pode projetar uma liderança emergente para além dos portões das fábricas.
Não faz muito tempo, em junho de 2024, Lula e Mino se encontraram pela última vez, em São Paulo. Conversaram, como de costume, sobre política, democracia e sobre as encruzilhadas que o país atravessa. Quem os acompanhava naquele dia talvez não imaginasse que seria o último diálogo entre os dois. Agora, esse encontro ganha o tom de despedida.
O falecimento de Mino Carta acontece num momento delicado para a imprensa e para o debate democrático no Brasil. Vivemos um tempo em que notícias falsas se espalham mais rápido do que a informação checada, em que jornalistas sofrem ataques virtuais e físicos, e onde a credibilidade da mídia é questionada a todo instante. Nesse cenário turbulento, a ausência de uma voz crítica e apaixonada como a de Mino deixa um vazio difícil de preencher. Gostando ou não do seu estilo, era inegável que ele buscava provocar reflexão — e, muitas vezes, incomodar.
Nas redes sociais, jornalistas, políticos, acadêmicos e leitores de longa data da CartaCapital expressaram pesar. Muitos lembraram da coragem de Mino em sustentar uma linha editorial independente, mesmo quando isso significava enfrentar dificuldades financeiras ou resistir a pressões políticas. Outros destacaram sua veia literária, seu humor ácido e sua eterna desconfiança em relação ao poder — qualquer poder.
A morte de Mino Carta não é apenas a despedida de um jornalista, mas o fim de uma era. Ele representava um tipo de jornalismo que acreditava na palavra escrita como arma, na reportagem como missão, na imprensa como pilar da democracia. Ao lamentar sua partida, Lula não falava apenas como amigo, mas como alguém que sabe, por experiência própria, o peso de ter sido retratado, criticado, defendido ou exposto nas páginas de revistas dirigidas por ele.
Agora, o Brasil segue sem a presença de Mino, mas com a responsabilidade de manter viva a chama do jornalismo crítico que ele tanto defendeu.