Na manhã desta quarta-feira (4), em meio a discursos solenes e clima de cerimônia oficial, representantes dos Três Poderes anunciaram um pacto nacional de enfrentamento ao feminicídio. O evento aconteceu no Palácio do Planalto e foi apresentado como mais uma tentativa do governo de mostrar reação diante dos números alarmantes de violência contra mulheres no Brasil, tema que tem voltado com força ao debate público nos últimos meses, principalmente após casos que chocaram o país e viralizaram nas redes sociais.
A iniciativa foi coordenada pelo Ministério das Mulheres, pasta criada justamente para tratar desse tipo de pauta sensível. Ainda assim, o que mais chamou atenção nos bastidores não foi exatamente o conteúdo do pacto, mas sim a ausência de voz da ministra Márcia Lopes durante a solenidade. Mesmo sendo a chefe da pasta responsável pela articulação do programa, ela não teve espaço para discursar no evento.
Além disso, Márcia também ficou de fora da primeira foto oficial divulgada à imprensa, aquela imagem clássica que costuma estampar portais de notícias e redes institucionais. Segundo informações publicadas pelo site Metrópoles, a assessoria da ministra afirmou inicialmente que estava previsto um discurso dela. Depois, a versão mudou. A nova explicação foi de que, apesar de estar preparada para falar, não havia confirmação formal de que ela teria esse espaço.
Enquanto isso, quem falou ao microfone foram figuras já conhecidas do cenário político nacional. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discursou, seguido pelo presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e também pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin. Todos homens, todos ocupando posições de poder, todos com tempo garantido de fala.
Para não dizer que nenhuma mulher discursou no evento que tratava justamente da violência contra mulheres, duas exceções foram abertas. A primeira-dama, Janja da Silva, e a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, tiveram espaço para se manifestar. Ainda assim, nos corredores do Planalto, a ausência da ministra das Mulheres no palco principal gerou comentários atravessados e certo constrangimento, principalmente entre assessores mais atentos à simbologia do ato.
Questionados por jornalistas, auxiliares próximos a Lula afirmaram que o objetivo central da cerimônia era “conscientizar os homens” sobre a gravidade do feminicídio. A justificativa não convenceu todo mundo. Em tempos em que a representatividade é cobrada com lupa, muita gente viu contradição entre o discurso e a prática apresentada no evento.
Até o fechamento desta matéria, a Secretaria de Imprensa da Presidência não havia se pronunciado oficialmente sobre o motivo da exclusão da ministra Márcia Lopes do palanque e da foto. O silêncio, como quase sempre, acabou falando mais alto. Nas redes sociais, o assunto começou a circular timidamente, mas já despertava críticas de usuários que questionavam como um pacto contra o feminicídio pode ser anunciado sem que a principal autoridade feminina da área tenha voz.
O episódio acontece em um momento delicado para o governo, que tenta reforçar sua imagem progressista e alinhada às pautas sociais, enquanto enfrenta pressão tanto da oposição quanto de setores do próprio eleitorado. Pequenos gestos, ou a falta deles, acabam ganhando um peso enorme. E, nesse caso, a ausência foi sentida — e registrada.