O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a chamar atenção, nesta quarta-feira (1º), para um ponto que, segundo ele, pode definir o futuro do governo: o Senado. Em uma fala que misturou alerta e estratégia política, Lula pediu que a esquerda olhe com mais cuidado para as eleições da Casa, pensando lá na frente — inclusive em um possível quarto mandato, algo que já começa a ser comentado nos bastidores.
A declaração foi feita durante entrevista à TV Cidade, no Ceará, e não passou despercebida. Lula foi direto, sem muito rodeio, ao dizer que senador tem um poder que muita gente subestima. “Um senador com mandato de 8 anos pensa que é Deus”, disparou. Segundo ele, se o governo não tiver uma base minimamente organizada dentro do Senado, a governabilidade pode virar um problema sério, daqueles difíceis de contornar.
E não é exagero, pelo menos na visão do presidente. Ele explicou que, diferente da Câmara, onde os mandatos são mais curtos, o Senado funciona quase como um freio — ou até um obstáculo — dependendo de quem está lá. Por isso, reforçou que não dá pra entrar em eleição achando que só o Executivo resolve tudo. Precisa de apoio, precisa de articulação, e isso, como ele mesmo disse, vem na base da conversa.
Durante a entrevista, Lula também comentou sobre a atual composição do Congresso. Ele destacou que hoje conta com uma base relativamente pequena, algo que, segundo ele, não impediu o avanço de pautas importantes. “Eu só tenho 70 deputados em 513 e 9 senadores em 81”, afirmou. Mesmo assim, citou conquistas como a aprovação da reforma tributária e medidas como o desconto no Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.
Mas, claro, nada veio fácil. O presidente fez questão de lembrar que tudo isso foi construído “na conversa”, no diálogo constante com parlamentares — inclusive aqueles que não fazem parte diretamente do PT. E aqui ele deu um recado que pode soar até meio pragmático: não dá pra querer dominar tudo. “Não podemos querer ter todos os senadores ou prefeitos do PT”, disse. Segundo ele, governar também é saber dividir espaço e construir alianças, mesmo com quem pensa diferente.
Esse ponto, aliás, chama atenção num cenário político cada vez mais polarizado, principalmente depois das últimas eleições. Nos últimos anos, a oposição tem ganhado força dentro do Senado, e isso muda bastante o jogo. Atualmente, o maior bloco da Casa é do Partido Liberal (PL), legenda ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que ainda mantém forte influência política mesmo fora do cargo.
Hoje, o PL conta com 15 dos 81 senadores, o que garante uma presença relevante nas decisões mais importantes. E isso pesa, principalmente quando se fala em temas mais sensíveis ou polêmicos.
Outro ponto que entra nessa conta — e que talvez muita gente não acompanhe de perto — é o poder que o Senado tem sobre o Supremo Tribunal Federal. Cabe aos senadores, por exemplo, a possibilidade de abrir processos de impeachment contra ministros da Corte, algo que, nos últimos tempos, tem sido cada vez mais discutido no meio político e nas redes sociais.
Ou seja, não se trata só de aprovar projetos ou barrar propostas do governo. O Senado também atua como peça-chave no equilíbrio entre os poderes. E, nesse cenário, ter uma base sólida não é só importante — é praticamente essencial.
No fim das contas, o recado de Lula parece claro: eleição não é só sobre ganhar a Presidência. Sem apoio consistente no Senado, qualquer governo corre o risco de travar. E, pelo visto, ele já está olhando bem além de 2026.