Lula cita Lampião, manda indireta para Trump e declaração causa alvoroço

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a chamar atenção nesta segunda-feira (9), em um evento no Instituto Butantan, em São Paulo. E, como já virou costume, misturou política externa com bom humor nordestino. Em tom de brincadeira — mas com recado nas entrelinhas — disse que, se o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, soubesse do seu “parentesco com Lampião”, pensaria duas vezes antes de provocar o Brasil.

A fala arrancou risos da plateia. Lula disse que é “teimoso” e “tinhoso” e citou a “sanguinidade de Lampião”, numa referência ao famoso cangaceiro Lampião, símbolo de resistência no Nordeste. Foi uma comparação curiosa, dessas que só ele faz. Ao mesmo tempo em que brinca, também manda o recado.

Logo depois, tratou de amenizar. Disse que não quer briga com Trump. “Não sou doido”, afirmou, arrancando mais risadas. E completou com ironia: “Vai que eu brigo e eu ganho, o que eu vou fazer?”. A frase circulou rápido nas redes sociais, principalmente em grupos políticos que já estão de olho em 2026.

Mas por trás da piada existe estratégia. Lula reforçou que a “briga” do Brasil é outra: a defesa do multilateralismo. Segundo ele, foi essa lógica de cooperação entre países que ajudou a manter certa estabilidade mundial após a Segunda Guerra. O presidente criticou o unilateralismo, aquela ideia de que o mais forte pode impor sua vontade ao mais fraco. “A nós, não interessa”, resumiu.

Essa defesa não é nova. Desde o primeiro mandato, lá em 2002, Lula insiste na reforma do Conselho de Segurança da ONU. Agora, com o cenário internacional turbulento — guerra em Gaza, tensões entre potências e disputas comerciais — o tema voltou à mesa.

Aliás, Lula e Trump já conversaram por telefone no dia 26 de janeiro. Ficou acertado um encontro em Washington. O presidente brasileiro confirmou que deve viajar em março para uma conversa “olho no olho”. A expressão também pegou. Nos bastidores, fala-se em cooperação na área de segurança pública, combate à lavagem de dinheiro, tráfico de armas e troca de informações financeiras. Segundo o Planalto, a proposta foi bem recebida.

Existe ainda o convite para que o Brasil participe de um chamado Conselho da Paz. A diplomacia brasileira, porém, avalia com cautela. Há receio de que o formato dê poder excessivo aos Estados Unidos e crie algo parecido com uma “ONU paralela”. Lula propôs mudanças, como limitar a atuação à crise de Gaza e incluir a Palestina no assento.

Enquanto isso, no evento do Butantan, o foco oficial era saúde pública. O governo anunciou investimento de R$ 1,4 bilhão para ampliar a produção de vacinas e insumos no país. Entre eles, o IFA para imunizantes como DTPa e HPV. Depois do trauma da pandemia de COVID-19, o tema vacina voltou com força no discurso político.

Durante a cerimônia, também foi anunciado o início da vacinação contra a dengue para profissionais da Atenção Primária do SUS, com vacina 100% nacional desenvolvida pelo Butantan. É um movimento que tenta reforçar a imagem de reconstrução do SUS e valorização da ciência.

Lula não deixou passar a oportunidade de criticar, ainda que indiretamente, o governo de Jair Bolsonaro, lembrando o período de negacionismo na pandemia. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, foi na mesma linha e fez críticas à postura antivacina de Trump, defendendo mais investimento como resposta.

Também estavam presentes o vice-presidente Geraldo Alckmin e outras autoridades. O clima era de campanha? Oficialmente não. Mas é inegável que, com 2026 se aproximando, cada agenda vira vitrine.

Entre piadas sobre Lampião e discursos sobre geopolítica, Lula mostra que continua apostando no mesmo estilo: fala popular, recado diplomático e um olho sempre voltado para o tabuleiro internacional. Pode até parecer improviso, mas dificilmente é por acaso.



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