A morte de Laura Cardoso, confirmada na noite desta segunda-feira (17), encerra uma das trajetórias mais importantes da televisão brasileira. Aos 98 anos, a atriz deixa para trás uma carreira enorme, cheia de personagens lembrados pelo público e histórias que atravessaram várias gerações. Mas, além dos trabalhos na televisão, no cinema e no teatro, Laura também ficou conhecida por uma coisa que defendia com muita firmeza: ela não queria se aposentar.
Para Laura, trabalhar como atriz nunca foi apenas uma profissão. Era quase uma necessidade. Ela gostava de estar no palco, diante das câmeras e de poder interpretar outras pessoas. Por isso, quando alguém falava em aposentadoria, a reação normalmente era imediata.
Em 2020, durante uma participação no programa Conversa com Bial, ela foi questionada justamente sobre esse assunto. Sem pensar muito, respondeu de maneira bastante direta: “Não, não, não! Não fala em aposentadoria. Você morre! Você para tudo. Não, não”. A frase acabou mostrando muito da personalidade da artista, que mesmo já tendo uma carreira de muitas décadas ainda não se enxergava longe da atuação.
Essa vontade de continuar trabalhando também apareceu em outras entrevistas. Em 2019, durante a divulgação da produção As Vilãs que Amamos, Laura voltou a falar sobre o tema e fez questão de dizer que não queria ser tratada como uma senhora que deveria simplesmente ficar em casa.
Laura Cardoso não gostava da imagem de uma “velhinha” aposentada. Ela brincava com a situação e dizia que não queria passar o resto da vida fazendo tricô ou ficando quietinha. “Nunca que quero me aposentar e fazer tricô, já falei 500 vezes, não sou a velhinha que faz tricô, sou um demônio, quero trabalhar, interpretar, fazer mil vidas”, afirmou na época.
O mais curioso é que ela até sabia fazer tricô. O problema, segundo a própria atriz, era ficar parada. Laura queria continuar vivendo através dos personagens.
“Até sei fazer tricô, mas não, ficar quietinha, não. Não posso viver sem trabalhar, sem me imaginar fazendo teatro, TV, cinema, não consigo, aí eu morro”, declarou.
Essa relação com a profissão ajuda a entender por que Laura Cardoso se tornou uma figura tão respeitada na dramaturgia nacional. Sua carreira começou ainda jovem e passou por diferentes momentos da cultura brasileira. Ela trabalhou no rádio, no teatro, no cinema e na televisão, acompanhando de perto as grandes mudanças que aconteceram no país e na própria forma de fazer televisão.
Na TV Globo, participou de dezenas de novelas e séries. Com o passar dos anos, virou um dos rostos mais conhecidos da dramaturgia brasileira. Mesmo quando aparecia em papéis menores, sua presença costumava chamar atenção, principalmente pela experiência e pela maneira de dar personalidade às personagens.
Seu último trabalho em novelas foi A Dona do Pedaço, exibida em 2019. Na produção, Laura interpretou Matilde Azevedo, encerrando sua participação nos folhetins depois de uma trajetória que parecia não ter fim.
Mesmo afastada do ritmo pesado das gravações, a atriz continuou ligada à Globo. Laura mantinha um contrato vitalício com a emissora e seguia sendo lembrada em momentos importantes da história da televisão.
Agora, com sua morte, fica o sentimento de despedida, mas também o reconhecimento. Laura Cardoso não queria parar de trabalhar. E talvez seja justamente essa paixão que melhor explique a marca que deixou: uma atriz que passou a vida inteira interpretando, aprendendo e, acima de tudo, vivendo a arte que escolheu.