Sem grana pra pagar uma UTI aérea — que custa uma fortuna — o brasileiro Ubiratan Rodrigues, de 41 anos, tomou uma decisão corajosa (e desesperada, segundo ele mesmo): vai cruzar o continente americano de motorhome, trazendo sua esposa Fabíola da Costa, de 32, que está em estado vegetativo. A viagem vai sair de Orlando (EUA) e percorrer mais de 6.800 km até Juiz de Fora (MG), passando por 11 países. O trajeto deve durar quase 50 dias.
A ideia é sair em novembro, se tudo der certo com a compra e adaptação do veículo — prevista pro fim de outubro. O roteiro é praticamente uma aventura humanitária: EUA, México, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Colômbia, Equador e Peru, entrando no Brasil pelo Acre, até chegar finalmente em Minas.
Tudo começou em setembro de 2024, quando Fabíola teve um mal súbito em casa, seguido de três paradas cardíacas. Durante a reanimação, o pulmão dela acabou perfurado. A falta de oxigênio causou danos graves no cérebro, deixando a jovem mãe em estado vegetativo. Ela reage a alguns estímulos, se mexe às vezes, mas não recuperou a consciência.
“Essa é a única saída viável. A gente quer voltar pra Juiz de Fora, ficar perto da família, tentar o tratamento pelo SUS. Já não temos mais condições emocionais nem financeiras pra seguir aqui”, desabafou Ubiratan, que largou o trabalho de caminhoneiro pra cuidar da esposa e dos três filhos — de 5, 14 e 17 anos.

O custo de um transporte aéreo especializado, com equipe médica e UTI completa, varia entre 50 mil e 200 mil dólares — algo em torno de R$ 1 milhão. Dinheiro que, claro, eles não têm. Então o motorhome virou a opção possível: o veículo, orçado em R$ 200 mil, vai ser adaptado com cama fixa, suporte pra traqueostomia, oxigênio e outros equipamentos necessários pra manter Fabíola estável.
Pra garantir a segurança durante a travessia, o marido montou um plano minucioso: vai evitar regiões desérticas e rotas perigosas, priorizando locais com hospitais próximos e pontos de apoio médico. O caminho pode até ficar 30% mais longo, mas, segundo ele, é o preço da segurança.
Ubiratan contou que, desde o ocorrido, a vida virou de cabeça pra baixo. “Eu vivia na estrada, era caminhoneiro, rodava o país inteiro. Agora minha estrada é outra, é tentar trazer minha esposa viva de volta pra casa.” Ele também tem feito rifas, vaquinhas online e recebido ajuda de brasileiros que moram fora. Nas redes sociais, muitos se comoveram com a história, especialmente depois que ele publicou vídeos mostrando a rotina de cuidados com Fabíola.
O Public Affairs Office of U.S. Customs and Border Protection confirmou que viagens terrestres com pacientes e equipamentos médicos são possíveis, desde que cada país aprove a passagem e toda a documentação esteja em dia. Ubiratan, segundo ele, já começou a organizar os papéis e as autorizações.
A jornada, se tudo correr bem, deve começar entre o fim de novembro e início de dezembro. Ele espera chegar ao Brasil ainda antes do Natal. “Quero que meus filhos passem o Natal com a mãe, mesmo que ela ainda não acorde. Só de tê-la em casa, vai ser um presente”, disse emocionado.
Entre esperança, fé e muito improviso, essa história é daquelas que misturam desespero com amor puro — o tipo de coisa que não dá pra medir em quilômetros nem em dólares.