Nos últimos dias, o cenário político em Brasília ganhou mais um capítulo daqueles que parecem até roteiro de novela mexicana. O deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi escolhido pelo PL como o novo líder da minoria na Câmara dos Deputados. A decisão não veio sozinha: junto dela, uma polêmica que tem dado o que falar nos corredores do Congresso e, claro, também nas redes sociais, onde Eduardo costuma disparar mensagens inflamadas.
Assim que foi oficializado no cargo, o parlamentar usou suas redes para agradecer a indicação e, ao mesmo tempo, lançar novas ameaças veladas sobre o futuro do Brasil. Ele disse, com todas as letras, que se a anistia ao pai não for aprovada, o país pode enfrentar uma crise “prolongada”. Em outras palavras: um recado de que o jogo político não vai se acalmar tão cedo sem essa tal anistia ampla e irrestrita.
Na postagem, Eduardo agradeceu a deputada Caroline de Toni (PL-SC), que abriu mão do cargo para dar lugar a ele. “Apenas a ANISTIA AMPLA, GERAL E IRRESTRITA será capaz de pacificar o Brasil e permitir o meu retorno e o bom desempenho das funções parlamentares. Qualquer coisa diferente disso fará o Brasil parar no tempo”, escreveu. O tom, como já é de costume, foi duro e cheio de frases de efeito, aquelas que viralizam rapidamente.
A jogada do PL
O detalhe mais chamativo dessa história é que Eduardo Bolsonaro está morando nos Estados Unidos desde fevereiro e, mesmo assim, segue como deputado federal. O PL costurou uma manobra política para blindá-lo de um possível processo de cassação por faltas. Como líder da minoria, ele ganha o direito de não precisar justificar presença em plenário, o que na prática permite que continue nos EUA sem sofrer sanções.
O plano foi arquitetado pelo líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), e aceito sem resistência pelo presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB). Caroline de Toni, que deixou a liderança, deve assumir a vice-liderança, ficando responsável por tocar a parte presencial em Brasília. Já Eduardo segue do outro lado do continente, usando as redes para se posicionar sobre a política nacional.
Sóstenes, aliás, não perdeu tempo e foi logo parabenizar o colega. Escreveu nas redes sociais que confia na “liderança firme e corajosa” de Eduardo para enfrentar o sistema e defender o povo brasileiro. A fala, que mais parece discurso pronto, foi vista por muitos como um gesto de completa submissão ao filho do ex-presidente, que ainda enfrenta processos e condenações na Justiça brasileira.
A tal justificativa de 2015
Para tentar dar sustentação à jogada, aliados de Eduardo citaram um precedente de 2015, quando a Mesa Diretora da Câmara, sob Eduardo Cunha, estabeleceu que líderes partidários e membros da Mesa não precisariam registrar presença em plenário. Só que essa decisão não tinha nada a ver com trabalho remoto e muito menos com parlamentares vivendo no exterior. Era apenas sobre dispensar alguns cargos da burocracia de presença.
O único período em que deputados puderam de fato trabalhar de forma remota foi durante a pandemia da Covid-19, em caráter totalmente excepcional. Portanto, usar o argumento de 2015 como justificativa para Eduardo seguir atuando dos Estados Unidos é, no mínimo, forçar a barra.
Um cenário instável
Esse episódio mostra mais uma vez como a política brasileira continua vivendo momentos de instabilidade e tensão. Enquanto parte do Congresso tenta normalizar a situação de Eduardo, críticas crescem na sociedade civil e entre opositores, que veem a manobra como um escândalo de legalidade duvidosa.
No fundo, essa movimentação escancara um problema antigo: o uso de brechas regimentais para favorecer interesses particulares, deixando em segundo plano o funcionamento regular das instituições. E num momento em que o país já enfrenta desafios sérios — da economia que não deslancha até as recentes polêmicas sobre segurança pública —, esse tipo de manobra só reforça a sensação de que Brasília continua distante da realidade da maioria dos brasileiros.