Nos últimos dias, circulou na internet e em diversas redes sociais a alegação de que, em fevereiro de 2025, algumas cidades brasileiras teriam registrado sensação térmica de até 70ºC devido à forte onda de calor que atingiu o país. No entanto, essa informação não procede. Trata-se de um boato sem embasamento científico.
É possível uma sensação térmica de 70ºC?
Em teoria, sim. De acordo com meteorologistas, existem condições climáticas que poderiam levar a um índice tão extremo. No entanto, esse cenário é altamente improvável, especialmente no Brasil. Durante a recente onda de calor, que afetou diversas regiões do país, os fatores necessários para atingir essa marca simplesmente não estavam presentes.
A relação entre temperatura e umidade relativa do ar é um ponto-chave para entender o conceito de sensação térmica. O meteorologista Olívio Bahia, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), explica que esses dois fatores se comportam de maneira inversamente proporcional:
“Normalmente, a umidade do ar é mais elevada nas primeiras horas da manhã, quando as temperaturas ainda estão baixas. Conforme o dia avança e a temperatura sobe, a umidade tende a cair.”
Para que a sensação térmica atingisse 70ºC, seria necessário um cenário de temperatura ao redor dos 39ºC combinada com umidade extremamente alta. No entanto, no Brasil, especialmente nas áreas mais quentes do país, essa combinação não costuma acontecer. Cidades como Cuiabá e Teresina frequentemente registram temperaturas superiores a 40ºC, mas a umidade nesses locais geralmente fica entre 25% e 30%, valores muito inferiores aos necessários para gerar um calor “sentido” tão extremo.
A origem do boato
As publicações que espalharam essa desinformação basearam-se em uma tabela atribuída ao Núcleo de Climatologia Aplicada da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), da Universidade de São Paulo (USP). Essa tabela usa temperatura e umidade como únicos parâmetros para calcular a sensação térmica, sem levar em conta outras variáveis relevantes, como a velocidade do vento, que pode alterar significativamente a percepção do calor.
Segundo esse gráfico, a sensação térmica de 70ºC só seria possível em situações muito específicas, como um ambiente com 39ºC e 95% de umidade relativa do ar, ou 41ºC com 80% de umidade. No entanto, esses valores são extremamente raros em território brasileiro.
A própria EESC-USP se manifestou sobre o assunto. Em uma nota divulgada em 12 de fevereiro de 2025, a instituição esclareceu que a tabela tem origem em um estudo publicado no site do Núcleo de Climatologia Aplicada em 2019, elaborado por um então doutorando. A nota também menciona que o conteúdo foi adaptado a partir de dados do National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), uma agência americana especializada em meteorologia e clima. Além disso, a USP informou que o Núcleo de Climatologia Aplicada encerrou suas atividades em 2022, após a aposentadoria do professor responsável.
O que dizem os especialistas?
Olívio Bahia, meteorologista do Inmet, reforça que a sensação térmica não é um cálculo simples. Para que um índice seja considerado válido, temperatura e umidade precisam ser analisadas no mesmo momento do dia. Não faz sentido, por exemplo, associar a máxima temperatura registrada à tarde com o pico de umidade observado pela manhã.
Ele cita o caso do dia 5 de março de 2025, quando várias cidades do Sul do Brasil registraram temperaturas elevadas. Entretanto, no mesmo horário, a umidade do ar estava abaixo de 30%, em algumas regiões chegando a 20%.
“É muito raro observarmos uma situação onde coexistam temperaturas superiores a 40ºC e umidade acima de 90%. Isso praticamente não acontece no Brasil.”
Outro ponto importante é que não há registros oficiais de sensação térmica máxima no país. Diferente de temperatura, que pode ser medida de forma objetiva, a sensação térmica é um conceito subjetivo, pois varia de acordo com a percepção individual de cada pessoa.
“Sensação térmica não é uma grandeza física mensurável de maneira direta. Por isso, não existe um histórico oficial desse dado.”
Dessa forma, a alegação de que cidades brasileiras chegaram a registrar 70ºC de sensação térmica em fevereiro de 2025 não se sustenta. As altas temperaturas realmente impactaram diversas regiões do país, mas os números exagerados que circularam na internet não são verdadeiros.