A morte da capitã da Polícia Militar de Minas Gerais, Michele Leão Azevedo, de 41 anos, causou grande repercussão em Belo Horizonte e também em outras partes do país. O caso chamou atenção não apenas pelo fato de envolver dois policiais militares, mas também pelos detalhes que surgiram durante a investigação. Michele chegou sem vida ao Hospital Odilon Behrens na noite de segunda-feira (20). Ela foi levada até a unidade pelo próprio marido, o 3º sargento Eduardo Abner Pereira de Oliveira, de 37 anos, que acabou preso em flagrante, suspeito de feminicídio.
Desde o início das investigações, a Polícia Civil passou a reunir provas que colocam em dúvida a versão apresentada pelo sargento. Além disso, depoimentos de familiares e pessoas próximas revelaram que Michele enfrentava um relacionamento considerado abusivo, marcado por episódios de controle, manipulação emocional e constantes humilhações.
Respeitada pelos colegas de farda, Michele construiu uma carreira sólida dentro da Polícia Militar de Minas Gerais. Ao longo dos anos participou de diversos cursos voltados para segurança pública e defesa social. Entre eles estava a formação como Multiplicadora de Direitos Humanos, oferecida pela própria corporação. Ela também fez uma especialização em docência do Ensino Superior pelo Instituto Federal do Sul de Minas, ampliando ainda mais sua formação profissional.
Segundo a mãe da capitã, Michele já demonstrava sinais de desgaste no casamento. Em depoimento à Polícia Civil, ela contou que a filha queria colocar um ponto final no relacionamento, mas o marido não aceitava a separação. Ainda conforme o relato, ele costumava controlar sua rotina e fazia pressão psicológica constante. Em uma ocasião, depois de uma discussão, teria permanecido em frente à casa da sogra por um longo período.
No dia em que morreu, Michele tinha combinado de encontrar a mãe. No entanto, durante uma ligação ela falou baixo, disse que não conseguiria sair e encerrou a conversa rapidamente. Depois disso, não respondeu mais mensagens nem ligações, o que deixou os familiares preocupados.

O principal investigado é o sargento Eduardo Abner Pereira de Oliveira. Integrante da PMMG desde 2015, ele estava lotado no 1º Batalhão da corporação. Além da função policial, também ocupou o cargo de diretor jurídico da Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares de Minas Gerais. A entidade informou, entretanto, que ele havia sido desligado em 2025 por descumprimento de normas internas.
As investigações também revelaram que Eduardo possuía dois registros anteriores relacionados à violência doméstica, feitos nos anos de 2014 e 2016. Esses casos não envolviam Michele, mas agora passaram a integrar o histórico analisado pelos investigadores.

Durante o depoimento, o sargento afirmou que o casal realizou uma confraternização em casa na noite anterior. Segundo ele, depois que os convidados foram embora, ambos consumiram bebida alcoólica e comprimidos de ecstasy. Também declarou que os dois mantinham práticas sexuais consensuais envolvendo dominação física, que inclusive seriam registradas em vídeos.
Ainda conforme sua versão, Michele teria sofrido uma queda de escada por volta do meio-dia, batendo fortemente a cabeça. Eduardo disse que limpou o ferimento e sugeriu levá-la ao hospital, mas ela teria recusado atendimento por medo de possíveis consequências disciplinares devido ao uso de drogas. Ele contou ainda que os dois dormiram e somente horas depois percebeu que a esposa já não reagia mais. Foi então que decidiu levá-la ao hospital.
Os primeiros exames realizados pelos médicos, porém, levantaram diversas dúvidas. A equipe constatou que Michele já estava morta havia entre quatro e seis horas antes de chegar ao hospital. Além do traumatismo na cabeça, foram identificadas várias lesões pelo corpo, incluindo marcas compatíveis com agressões e um ferimento grave na região do rosto.
Segundo a Polícia Civil, essas evidências foram fundamentais para a prisão em flagrante do militar. O delegado responsável pelo caso afirmou que a quantidade e a gravidade das lesões não eram compatíveis, em um primeiro momento, com a explicação apresentada pelo suspeito.
Outro fato que reforçou as suspeitas aconteceu dentro do próprio hospital. Enquanto aguardava atendimento policial, Eduardo pediu para usar o banheiro. No local, um policial militar o flagrou tentando jogar fora uma caixa contendo 18 comprimidos de ecstasy. A droga foi apreendida e, por esse motivo, ele também passou a responder por tráfico de drogas.
As investigações ganharam ainda mais força depois que imagens das câmeras de segurança mostraram Eduardo carregando Michele desacordada até o carro antes de seguir para o hospital. As gravações, juntamente com a perícia feita na residência e no veículo do casal, passaram a fazer parte do inquérito.
Agora, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher segue reunindo depoimentos, laudos periciais, registros eletrônicos e demais provas para esclarecer completamente o caso. Eduardo permanece preso, enquanto a defesa informou que só irá se manifestar depois da conclusão dos exames periciais e do andamento oficial da investigação. Até o momento, a Polícia Civil trata o caso como feminicídio consumado.