A televisão brasileira amanheceu mais silenciosa nesta segunda-feira (24/11). Sabe aqueles dias em que a gente liga a TV esperando a rotina normal — os programas matinais, as chamadas animadas, o noticiário girando sem parar — e, de repente, recebe uma notícia que desmancha o clima? Pois é. Foi assim quando veio a confirmação da morte de Ione Borges, uma daquelas figuras que marcaram época nos antigos programas femininos e que, por muitos anos, fez dupla com Claudete Troiano, as famosas Parcerinhas. Ione tinha 73 anos.
A notícia não veio primeiro pela imprensa, mas sim de maneira mais íntima: pelas redes sociais de Claudete. A apresentadora, visivelmente abalada, publicou um texto emocionado falando da tristeza de perder não só uma colega de trabalho, mas uma amiga de décadas. Foi um post simples, sem muita firula, mas que carregava aquele peso que dispensa grandes discursos. Em poucos minutos, o comentário se espalhou e muita gente que cresceu assistindo às duas começou a deixar mensagens também — uma avalanche de lembranças, fotos antigas, trechos de programas recuperados por fãs e até alguns daqueles vídeos meio tremidos gravados da tela, como as pessoas ainda fazem em 2024 sempre que algo mexe com a memória afetiva.
Para quem não acompanhou a época, é até estranho imaginar o quanto as “Parcerinhas” influenciaram o formato dos programas femininos no Brasil. Era outro tempo, sem streaming, sem TikTok engolindo a atenção de todo mundo, sem essa correria de informação que mal dá pra respirar. Ione e Claudete tinham aquele estilo de apresentação que misturava conversa de amiga, informação do cotidiano, umas receitas inesperadas e entrevistas que hoje talvez soassem até improvisadas, mas que na época eram justamente o que tornava tudo tão próximo do público.
E o curioso é que, mesmo tantos anos depois, ainda dá pra sentir esse vínculo. Talvez porque a televisão, naquele período — começo dos anos 90, principalmente — ainda ocupava um lugar muito íntimo na vida das pessoas. Em muitas casas, elas estavam lá, todos os dias, como se fossem conhecidas da família. E esse tipo de relação, uma vez criada, fica.
Na publicação, Claudete disse algo como “é muito difícil escrever isso”, e dava pra sentir que não era frase de efeito. Era dor mesmo. E ela não precisou elaborar tanto; às vezes, uma frase curta entrega mais do que um texto cheio de construções perfeitinhas. Inclusive, isso torna tudo ainda mais humano, principalmente nessa era em que todo mundo tenta parecer emocionalmente impecável nas redes.
A repercussão também chamou atenção porque, nos últimos meses, algumas figuras da televisão brasileira — apresentadores, jornalistas e humoristas — têm enfrentado problemas de saúde e, infelizmente, algumas perdas recentes foram bastante comentadas. Isso acaba deixando o público ainda mais sensível. A morte de Ione parece ter acionado mais um daqueles botões de nostalgia que lembram como o tempo realmente passou.
E, honestamente, dá até uma pontinha de saudade daquele jeito mais simples de fazer TV. Hoje os programas precisam competir com mil formatos, algoritmos, cortes de 15 segundos, enquanto naquela época a conexão se dava no ritmo da conversa, sem tanta pressa ou preocupação em viralizar. Ione fazia parte desse estilo de comunicação mais caloroso, mais despretensioso, que não buscava perfeição, mas presença.
A despedida dela marca o fim de mais um capítulo importante da história da televisão brasileira. Não só por sua carreira, mas pelo que ela representou num período em que as apresentadoras conseguiram abrir espaço, conquistar público e consolidar programas que hoje são referência. E, mesmo que o mundo tenha mudado demais, essas figuras continuam vivas na memória coletiva — aquele tipo de lembrança que a gente nem percebe que guardou, até o dia em que precisa revisitar.
Ione Borges se vai aos 73 anos, deixando saudade, histórias, e aquela sensação estranha de que certas presenças, mesmo distantes, nunca desaparecem completamente. Hoje, a TV ficou um pouco menos colorida. Mas a memória, essa continua bem vívida.