A aposentada Lúcia Helena Canhada Lopes, de 68 anos, jamais imaginou que uma viagem a Brasília terminaria de forma tão dramática. No último domingo (25), ela estava entre as dezenas de pessoas atingidas por um raio durante um ato público realizado na capital federal, logo após a Caminhada por Justiça e Liberdade, evento que reuniu apoiadores e curiosos e foi organizado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).
Lúcia não estava sozinha. Ao seu lado estava a amiga de longa data, Maria Eli Silva, de 58 anos. As duas se conhecem há cerca de 40 anos, uma amizade construída ao longo da vida, com histórias, viagens e muitas conversas acumuladas. Elas costumam viajar juntas pelo Brasil, seja por lazer, seja para participar de eventos que consideram importantes. Dessa vez, no entanto, o passeio virou um susto daqueles difíceis de esquecer.
Maria Eli foi a que mais sofreu com o impacto. Ela segue internada na UTI do Hospital Santa Marta, em Taguatinga (DF), onde recebe cuidados intensivos. Lúcia também foi levada para o mesmo hospital, passou por exames e observação médica, mas teve alta poucas horas depois. Mesmo fora de perigo, o choque emocional ainda é grande.
Moradora de Olímpia, no interior de São Paulo, Lúcia contou em entrevista à Folha de S.Paulo como tudo aconteceu. Segundo ela, o momento do raio foi rápido e confuso. “Eu ouvi um estrondo muito forte, parecia uma explosão. Depois disso, apaguei”, relatou. Ao recobrar a consciência, desorientada e ainda no chão, o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça foi de que se tratava de um atentado. Em tempos de tanta tensão política e notícias pesadas quase todo dia, a ideia não parecia absurda.

A fala que mais chamou atenção, no entanto, foi dita com uma calma que surpreendeu até quem estava ouvindo. “Se eu tivesse morrido, também não teria problema. Morreria por uma causa justa, nobre”, afirmou Lúcia. A declaração repercutiu nas redes sociais, dividindo opiniões, como quase tudo hoje em dia. Enquanto alguns elogiaram a coragem e convicção da aposentada, outros acharam a frase forte demais, ainda mais diante de um episódio tão grave.
O fato é que o incidente acendeu um alerta. De acordo com nota oficial divulgada pelo Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, ao menos 72 pessoas precisaram de atendimento no local após a queda do raio. Destas, 30 foram encaminhadas para hospitais da região. Houve casos de queimaduras leves, desmaios e muito pânico. Para quem estava presente, o clima era de total desorganização nos primeiros minutos, com gritos, correria e gente tentando ajudar como podia.
Especialistas lembram que, apesar de parecer algo raro, o Brasil é um dos países com maior incidência de raios no mundo. Eventos ao ar livre, principalmente em dias de instabilidade climática, exigem atenção redobrada. Mesmo assim, muita gente ignora os riscos, seja por falta de informação ou por acreditar que “nunca vai acontecer comigo”. Até acontecer.
Enquanto Maria Eli segue lutando pela recuperação, Lúcia tenta digerir tudo o que viveu. Entre o alívio de estar viva e a preocupação com a amiga, ela diz que a experiência deixou marcas. “A gente sai de casa achando que vai só participar de um ato e volta com outra visão da vida”, comentou a pessoas próximas. Um domingo que era para ser de manifestação e encontro acabou se transformando em um lembrete duro de como tudo pode mudar em questão de segundos.