A decisão dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas repercutiu não apenas no Brasil, mas também em outros países da América do Sul. Apesar de o assunto ter ganhado força recentemente após o anúncio do governo norte-americano, a verdade é que Argentina e Paraguai já haviam adotado medidas semelhantes meses antes, ainda em 2025.
Enquanto isso, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva segue sem reconhecer oficialmente as duas facções criminosas como grupos terroristas. O tema continua dividindo opiniões e alimentando debates sobre segurança pública, combate ao crime organizado e cooperação internacional.
A medida anunciada pelos Estados Unidos foi oficializada em 28 de maio pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. A decisão chamou atenção porque ocorreu poucos dias depois de um encontro entre o senador Flávio Bolsonaro e o ex-presidente Donald Trump. Durante a reunião, Flávio teria defendido a necessidade de um posicionamento mais duro dos americanos em relação às organizações criminosas brasileiras.
No Paraguai, a classificação das facções aconteceu ainda em outubro do ano passado. O presidente Santiago Peña assinou um decreto que enquadrou tanto o PCC quanto o CV como organizações terroristas. Segundo o governo paraguaio, a decisão levou em consideração o envolvimento dos grupos em atividades como tráfico internacional de drogas, comércio ilegal de armas e esquemas de lavagem de dinheiro que afetam diretamente a segurança do país.
A mudança teve efeitos práticos quase imediatos. As autoridades paraguaias passaram a contar com apoio mais amplo das Forças Armadas no combate ao crime organizado, além de endurecer punições para integrantes dessas organizações. Também houve reforço na fiscalização das fronteiras, consideradas estratégicas para impedir o avanço das facções pela região. Peña, que pertence a um partido de perfil conservador, defendeu a medida como necessária para proteger a soberania nacional.
Na Argentina, o caminho seguido foi bastante parecido. Também no dia 31 de outubro, o presidente Javier Milei determinou a inclusão do Comando Vermelho e do PCC no Registro Público de Pessoas e Entidades Vinculadas a Atos de Terrorismo, conhecido pela sigla REPET. O cadastro é administrado pelo Ministério da Justiça argentino e serve para monitorar organizações consideradas ameaças à segurança nacional.
Pouco tempo depois, o governo argentino anunciou uma ampla mobilização militar na região da Tríplice Fronteira, área considerada sensível pelas autoridades dos três países. Blindados, aeronaves, drones de vigilância e até equipes especializadas em ciberdefesa foram deslocados para reforçar a segurança local. A preocupação principal era impedir que as facções ampliassem suas operações transnacionais.
Na época, uma das justificativas apresentadas pelo governo argentino estava relacionada a uma grande operação policial realizada no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. A ação mobilizou centenas de agentes e teve como alvo áreas controladas pelo Comando Vermelho. De acordo com os números divulgados pelas autoridades, 113 suspeitos foram presos. Além disso, confrontos armados registrados durante a operação terminaram com 121 mortos, dado que gerou repercussão dentro e fora do Brasil.
Agora, com a entrada dos Estados Unidos nesse grupo de países que classificam PCC e CV como organizações terroristas, o tema volta ao centro das discussões. Especialistas avaliam que a medida pode facilitar acordos internacionais, ampliar mecanismos de cooperação policial e financeira e aumentar a pressão sobre integrantes das facções que atuam fora do território brasileiro.
Segundo o cronograma divulgado pelas autoridades americanas, a classificação passa a produzir efeitos oficiais a partir da próxima sexta-feira, dia 5. O desdobramento da decisão e seus impactos na relação entre os países da região ainda devem render muitos debates nos próximos meses.